O Apóstolo da Paz
São Francisco em êxtase (1595)
Caravaggio
“Com dois ou três Franciscos, não teria sido necessária a revolução bolchevique” - Lenine
“Há homens que, vivendo profundamente a problemática do seu tempo e de seu povo, são tão humanos que permanecem como inspiração para todos os tempos e todos os povos. Francisco de Assis é um desses homens raros que, ao longo dos séculos, das latitudes e longitudes, interpelam, questionam, desinstalam” - Dom Hélder Câmara
“Francisco é, num certo sentido, o santo universal; através dele Cristo quis proclamar o Evangelho, não só à sua época, mas também às outras, à nossa, a culturas e civlizações” - João Paulo II.
São Francisco nasceu em 1181/1182 em Assis na Itália, foi batizado com o nome de Giovanni di Pietri, mas seu nome foi mudado pouco tempo depois para Francisco, pois seu pai Petri di Bernardone era comerciante e viajava muito a França, mudou o nome do filho em homenagem ao local onde fazia bons negócios.
Em 1198 acontece um conflito em Assis, os nobres se refugiam em Perusa, uma pequena cidade próxima de Assis, onde São Francisco ficou preso por um ano até o ano de 1204. Em Perusa também estava a família de Clara.
Ao voltar para Assis, São Francisco doente começa sua conversão gradual, se dedica a dar esmolas e oferece até suas roupas aos pobres. Tem visões e começa a desprezar as coisas materiais e a vida mundana. Até que ele se encontra com um leproso, lhe dá esmola e um beijo, e este acontecimento marcou tanto a sua vida que, dos muitos fatos ocorridos em sua vida, este foi o primeiro que entrou em seu Testamento, “pois o que antes era amargo se converteu em doçura da alma e do corpo”.
Outros encontros afirmaram ainda mais a vocação de São Francisco, nas ruínas da igreja de São Damião recebeu do Crucificado o mandato de restaurar a Igreja. Obediente ao mandato, São Francisco pôs-se logo a trabalhar. Reconstruiu três pequenas igrejas abandonadas: a de São Damião, a de Santa Maria dos Anjos e a de São Pedro.
Seu pai, envergonhado do novo estilo de vida adotado por Francisco, queixou-se ao bispo de Assis da prodigalidade do filho e, diante do prelado, pediu a Francisco que lhe devolvesse o dinheiro gasto com os pobres. A resposta foi a renúncia à vultosa herança: despindo, ali, suas vestes, Francisco exclamou: “… doravante não direi mais pai Bernardone, mas Pai nosso que estás no céu…”
A partir desse momento passa a viver na pobreza, e dá início a Ordem Franciscana, com o crescente número de companheiros, em 1209 já são 12. Cria uma regra muito breve e singela, que o papa Inocêncio III aprova em 1210, e cujas diretrizes principais eram pobreza e humildade, surge assim a Fraternidade dos Irmãos Menores, a Primeira Ordem.
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A apresentação da regra (1297-1299)
Giotto
No Domingo de Ramos de 1212, uma nobre senhora, chamada Clara de Favarone, foi procurar Francisco para abraçar a vida de pobreza. Alguns dias depois, Inês, sua irmã, segue-lhe o caminho. Surge a Fraternidade das Pobres Damas, a Segunda Ordem. Aqueles que eram casados ou tinham suas ocupações no mundo e não podiam ser frades ou irmãs religiosas, mas queriam seguir os ideais de Francisco, também foram contemplados: por volta de 1220, Francisco deu início à Ordem Terceira Secular para homens e mulheres, casados ou não, que continuavam em suas atividades na sociedade, mas vivendo o Evangelho.
A Ordem Franciscana cresceu com o passar dos anos. Em 1219 houve uma grande expansão para a Alemanha, Hungria, Espanha, Marrocos e França. Neste mesmo ano São Francisco vai em missão para o Oriente. Durante sua ausência, vigários modificam algumas regras da Ordem e no mesmo ano de 1219 São Francisco se demite da direção da Ordem. Com o crescimento da Ordem, quase 5.000 frades em 1221, uma nova regra foi escrita por São Francisco em 29 de novembro de 1223 que foi aprovada pelo papa Honório. É a que vigora até hoje.
Em 1224 no dia 17 de setembro São Francisco recebeu as chagas de Jesus crucificado em seu próprio corpo, este fato ocorreu no Monte Alverne, em um dos eremitérios dos frades. Os últimos escritos de São Francisco são entre 1225 e 1226, dentre eles o Cântico das Criaturas e o Testamento. Nestes mesmos dois anos, Francisco vai a vários lugares da Itália para tratar de sua visão. Passa por diversas cirurgias. Morre aos 03 de outubro de 1226, num sábado.
Morreu nu aquele que começou a vida de conversão nu na praça de Assis diante do bispo, do pai e amigos. Morreu ouvindo o Evangelho de João, onde se narra a Páscoa do Senhor, aquele que recebeu os primeiros companheiros após ouvir o Evangelho do envio dos apóstolos.
Foi sepultado no dia 04 de outubro de 1226, domingo, na Igreja de São Jorge, na cidade de Assis.
São Francisco de Assis foi canonizado em 1228 por Gregório IX e a Igreja o celebra em 04 de outubro.
Em 25 de maio de 1230 os ossos de São Francisco foram levados da Igreja de São Jorge para a nova Basílica construída para ele, a Basílica de São Francisco, hoje aos cuidados dos Frades Menores Conventuais.
Francisco, o Santo-Alegria
1. Introdução
Tenho a impressão de que em nossos dias fala-se mais em felicidade do que em alegria. Sinto certa apreensão, pois isso representa certa banalização mais abrangente. Você entra numa lojinha qualquer para comprar um par de meias, ou umas cuecas e já sorridente vendedora o trata por “meu amor”. Ser amado e feliz passou a ser uma obrigação universal. Pobres dos melancólicos, dos abatidos, dos deprimidos! Felicidade parece-me algo tão beatífico! Lembra conquista definitiva, realização, plenitude.
2. São Francisco e a alegria
Francisco declara bem-aventurados os frades que vivem situações àquelas às quais o Evangelho qualifica de bem-aventuranças. Em geral são declarações dele a respeito de quem procede evangelicamente, como nas suas Admoestações diz: “bem-aventurado aquele que nada retém para si”. Neste sentido encontrei - só nos escritos atribuídos a Francisco - 12 vezes a expressão bem-aventurado (s) e uma vez “felizes” como sinônimo de bem-aventurados. Na verdade são promessas de felicidade se os frades conseguirem realizar determinadas propostas evangélicas. Quando Francisco lida com o dia-a-dia de seus irmãos e refere-se às qualidades e virtudes para a boa vivência da fraternidade, para o sucesso na luta contra Satanás e a eficiência da evangelização, ele fala 19 vezes em alegria.
3. Alegria como virtude
Não é muito fácil transformar a alegria em virtude, pois alegria parece constituir-se apenas de uma emoção primária agradável, fruto da posse de coisas desejadas. O problema está naquilo que se deseja. A alegria do Tio Patinhas por encontrar mais uma mina de ouro não é virtuosa, pois é fruto de sua desmedida cobiça e poderá incentivar outros a se entregarem ao materialismo.
Francisco, por sua vez, acabara de romper com o pai ganancioso e com a riqueza de que podia usufruir na família. Procurava em seu íntimo uma forma de viver mais de perto o ideal do Evangelho e do modo de ser do próprio Cristo.
Numa missa ouve aquela passagem na qual Jesus envia seus discípulos a pregar. Depois pede ao sacerdote que lhe explique a leitura. Diante do quadro dos enviados “sem bastão”, sem dinheiro, sem reserva de pão, sem calçados”, ocupados unicamente em pregar o Reino de Deus e a penitência, Francisco tem uma iluminação. Segundo Tomás de Celano, ele exclama: “É isso que eu quero, isso que procuro, é isso que DESEJO DE TODO CORAÇÃO”.
Ora, quem consegue conquistar “aquilo que deseja” de todo o coração, só pode experimentar uma alegria correspondente. É o que Jesus afirma ao comparar o Reino a um tesouro. Quem o encontrar abre mão de TUDO o que possui e, “cheio de alegria compra aquele campo” (Mt 13,44). Para chegar ao TESOURO, Francisco teve que perder tudo. Enquanto ia perdendo, já sentia o coração enchendo-se de alegria. A conclusão disso foi claríssima para ele: a alegria é o certificado de qualidade da evangelização. Só é bom discípulo e bom anunciador do Reino quem não conseguir esconder aos demais - por causa da alegria irreprimível - que ele encontrou algo realmente extraordinário.
4. Desdobramentos da alegria
São Francisco está a uns cinco meses de sua morte. Seu corpo reduziu-se a uma ruína humana. Não consegue mais escrever. O sofrimento físico é atroz e torturante. Dita assim mesmo um testamento com suas últimas recomendações. Depois pede que Frei Leão escreva o que ele tem a dizer sobre aquilo que considera ser a ALEGRIA PERFEITA. Francisco imagina duas situações.
Na primeira chegam mensageiros anunciando sucessos inimagináveis de sua Ordem nos mais diversos recantos da Terra. “Digo-te - afirma ele - que em tudo isso não está a verdadeira alegria”. Na segunda Francisco imagina-se numa emergência hipotética. Ele próprio, o fundador da Ordem, volta para o conventinho da Porciúncula, “sua” casa-mãe, todo machucado, esgotado pela fadiga e quase morto pela mais violenta nevasca. Bate muitas vezes na porta. Por três vezes, o porteiro abre, xinga Francisco de todas as formas. Conclui o santo: “Pois bem, se eu tiver tido paciência e permanecer imperturbável, digo-te que aí está a verdadeira alegria, a verdadeira virtude e salvação da alma”.
Por muito tempo, por mais que isso impressionasse, eu imaginava que era o tranvasar da expressividade dramática da alma latina, italiana, de Francisco. Mas, eis que em um de seus biógrafos encontrei a explicação. Francisco não se ligava no conteúdo da ofensa de quem o agredia. Concentrava-se na desordem do coração e pecado do ofensor. Em vez de ficar ofendido, enchia-se de cuidados e compaixão pelo irmão agressivo.
5. Pretensão
Deus e Jesus Cristo tornam-se cada vez mais a única e avassaladora paixão de São Francisco. No altar desta paixão, ele sacrifica tudo, inclusive todos os outros possíveis projetos e desejos. É isso que ele entende por POBREZA. Sobra só um desejo irresistível: imitar em tudo seu Cristo -Paixão, sem sofrer menos que Ele “pela salvação de todos”. Assim, Francisco desenvolveu uma blindagem protetora contra todas as adversidades, todas as injustiças, toda forma de sofrimento.
Todo sofrimento é sempre invadido pela luz e significado que brotam de seu CRISTO-MODELO. Ocorre uma verdadeira transubstanciação da dor e do sofrimento. Adquirem uma nova natureza. Aí fica difícil saber onde termina Francisco e onde começa Cristo. Nesta comunhão, os contornos e as figuras de ambos se embaralham nossos olhos. Então toda sorte de sofrimentos simplesmente o fazem sentir-se mais perto, mais identificado com seu divino mestre e modelo, sua única paixão. Isso realimenta e purifica sua indefectível alegria.
Por isso seus contemporâneos afirmavam que Francisco era outro Cristo.
São Francisco hoje
Paulo Evaristo, Cardeal Arns
Ser franciscano não é apenas conteúdo. É espírito, maneira de ver as coisas, de vivê-las, de assumi-las e de equacionar os grandes conflitos de vida e de morte. Isto Francisco fez em sua época e o faria hoje, aqui e agora. Por isso ele é grande e universal. Fascinará qualquer pessoa em qualquer época, pelo seu jeito de ser: pobre, serviçal, gratuito, fraterno e por conseguinte Menor.
Francisco não teve nenhuma pretensão, a não ser dar-se. Quis estar junto do outro. Ser Menor, pequeno, para entender a grandeza do outro, não o atropelando em sua dignidade. Viveria certamente hoje na América Latina uma busca contínua de comunhão com Deus, através de tudo e de todos os seres criados. Tornaria o Evangelho vivo e encarnado, comprometido com o oprimido e o marginalizado de nosso tempo. Daria sem dúvida sua adesão total às linhas de ação assumidas pela Igreja. Imcumbir-se-ia da tarefa de reconstituição original da Igreja cristã. Cultivaria profundo respeito para com a pessoa humana, construindo a fraternidade no amor, unindo os homens entre si, como irmãos, numa mesma igualdade de bens.
Correria ao encontro do “leproso” da América Latina, na pessoa do analfabeto, desempregado, marginalizado, oprimido, posseiro ou menor abandonado. Lutaria pela união das Igrejas, reunindo as forças, particularmente as da juventude, para a renovação da única Esposa de Jesus Cristo. Buscaria sem cessar a face deste mesmo Cristo. Viveria como um homem simples, fraco, o menor de todos, e sempre atento, superando as próprias limitações. Apareceria certamente como verdadeiro revolucionário, homem de profunda fé, coragem, humildade, amor e compreensão, em relação à conquista de verdadeiros valores. Francisco seria capaz de ser muito, sem ter nada!
Enfrentaria os problemas de conflito sempre sob o imperativo da bondade. Seguindo o caminho do pastor, que toma nos ombros a ovelha fraca e a alimenta. Isto, porque nele existe a percepção profunda de que em cada homem há um brilho de Deus, que nenhum pecado pode apagar. Nada é absolutamente perdido, nem o pior dos pecadores.
Nunca se ouviu dizer que Francisco condenasse a sociedade de seu tempo, mas também nunca se soube que ele deixasse de melhorar o que estava errado. Para construir uma sociedade fraterna reformou sua própria vida, soube confiar mais em Deus que em si e nos outros. “Meu Deus e meu Tudo!” - foi de inspiraçãoi bíblica e exprimiu o mais profundo de todos os seus anseios. Dele podemos ouvir: “O mundo está em suas mãos. Ou você se salvará com ele ou ele se perderá com você”. Portanto, reler nossa realidade com os olhos de Francisco é perceber que a ação transformadora de Deus passa pelo coração dos homens.
Sua mensagem continua vigorosa e irresistível!
Estar com as coisas e não sobre elas
Francisco não queria jamais estar sobre as coisas, nem cantar por meio delas. Queria estar com elas num radical sentimento de fraternidade. Elas cantam ao Criador; cabe-nos unirmo-nos ao seu cântico. A todas chama ternamente de irmãs ou irmãos muito amados: o verme da estrada, a cigarra, a lua e até as enfermidades. Ser irmão e irmã de todos os seres não é para o homem do Paraíso, nascido em Assis, a dedução de algum princípio teológico, mas a expressão de uma ternura fundamental e de uma comoção do coração.
No outono de 1225, encontra-se muito doente, quase cego a ponto de não suportar o mais fraco raio de luz. Sofre interior e exteriormente. Vê a Ordem se transformando já numa instituição com conventos e prescrições, pondo em perigo a simplicidade evangélica.
Exteriormente os estigmas sangram e o enfraquecem sobremaneira. Francisco chega à igrejinha de São Damião. AÍ vive Clara. Cheia de solicitude ela manda construir uma choupana para acolher o companheiro de intuições e de experiências religiosas. Ratos correm por todo o espaço a ponto de impedir qualquer descanso ao seráfico estigmatizado.
Neste contexto de angústia e sofrimento, Francisco, certo dia, entra como que em agonia. No decurso deste transe ouve em espírito uma promessa inaudita: em recompensa por tantos padecimentos receberá um benefício que valor nenhum deste mundo se lhe poderá igualar: “alegra-te, ó irmão, e goza em meio às tuas tribulações e para o futuro estejas seguro como quem já está no meu Reino”.
Francisco é tomado de alegria incontida. Já há muito tempo que não podia mais ver o irmão sol, nem a irmã lua, nem apreciar a água corrente e os campos floridos. Mas o coração vê melhor e mais profundamente que os olhos. Com o coração abrasado de júbilo e amor, compôs o Cântico do Irmão Sol para o qual improvisou logo uma radiante melodia.
Aí tudo se reconcilia: o céu com a terra, os homens inimizados entre si, a vida com a morte. O homem novo que estava sendo gestado em Francisco acaba de nascer. Por isso ele é o homem do Paraíso, tão inocente e cheio de luz como no dia primeiro da criação. Valeu o esforço de identificação com o novíssimo Adão Jesus Cristo. Francisco será o “único depois do Primeiro” e quiçá o último cristão no sentido radical desta palavra.
O Paraíso não está totalmente perdido. Quem se despojar como Francisco a ponto de ser ave com a ave, terra com a terra e leproso com o leproso, poderá cantar também com todas as criaturas. Então, o Cântico di Frate Sole terá estrofes sem fim.
De Leonardo Boff, extraído do livro “Francisco de Assis, o homem do Paraíso”, Editora Vozes.
Fonte: franciscanos.org.br, saofranciscodeassis
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