O Drama de Darfur
Refugiados em Darfur (Foto:ECHO)
Mais de 200 mil pessoas morreram nos últimos quatro anos em bombardeios, incêndios e outras ações bárbaras que violentam mulheres, velhos e crianças nesse rincão africano. Para piorar o conflito, o desequilíbrio ecológico amplia a seca, e os rebeldes de Darfur disputam comida e água a balas
Meninos esquálidos, uma terra amarela, tendas e árvores ressecadas. Esse é o retrato que conhecemos do povo de Darfur, mas o campo de refugiados que vem captando a atenção do planeta é apenas o epicentro do drama. Mais de 200 mil pessoas já morreram desde 2003, início do atual conflito, e cerca de 2,5 milhões abandonaram essa província sudanesa, com 6,5 milhões de habitantes, espalhados numa extensão equivalente à da França. Só para o Chade, país de fronteira, já se dirigiram 200 mil desabrigados.
Envolvendo as principais tribos que compõem Darfur, o conflito tem contornos ampliados pela crise ecológica. O deserto de Saara avança por áreas de cultivo e reduz dramaticamente o acesso à água. A luta por espaço vital é a primeira dimensão contemporânea da tragédia.
A segunda pode ter nuanças econômicas: Darfur está situada no oeste do maior país da África, o Sudão, que tem petróleo em grande quantidade, a ponto de ser comparado com a Arábia Saudita. Além disso, possui gás natural, urânio e cobre. É um território cobiçado, onde os chineses já estão presentes explorando 60% do petróleo e interessados em outros minérios.
A superfície arenosa oferece o cenário para cenas de horror, em que milícias montadas a cavalo e camelo põem fogo em vilarejos e templos, confiscam gado e matam crianças e velhos. As mulheres que sobrevivem se tornam prisioneiras e denunciam a organizações como o Human Rights Watch que vivem sob exploração sexual, submetidas a estupros diários.
A região tem rios, montanhas e também algumas cidades, como Nyala. Um camponês chamado Awad perdeu sua casa e plantação e internou-se com a mulher num campo de refugiados. Todos os dias, ele caminha até a cidade em busca de emprego. "A maioria fica nos abrigos porque já está muito velha e cansada para seguir lutando", revela.
O país já passou por outras guerras civis, uma delas opondo o norte muçulmano ao sul cristão e animista. Darfur, em árabe, significa terra dos fur, uma das tribos da região. As outras são os masalits e os zaghawas. Há quatro anos, sentindo-se abandonados pelo governo, dois grupos distintos, o Justiça e Liberdade e o Exército de Libertação do Sudão, se lançaram na luta armada contra o poderio de Cartum, a capital sudanesa.
Os rebeldes afirmam que o governo central privilegia as tribos árabes e empobrece as outras. Muitos pensam que a guerra em Darfur é entre muçulmanos e não-muçulmanos, como houve no passado.
Agora, a maioria é muçulmana, e o distúrbio pretende questionar o poder dos árabes também na cúpula do governo.
Instalado o conflito, o Exército atacou a região. O modelo bélico era lançar bombas do alto e deixar que, no solo, as milícias destruíssem os adversários. Essas milícias são os janjaweeds, guerreiros muçulmanos recrutados nas tribos árabes. Segundo vítimas, eles usam fardas do Exército sudanês. Como estão sempre montados, ganharam esse nome, que significa cavaleiros em árabe.
Já houve uma tentativa de paz numa conferência em Abuja, na Nigéria. Tudo parecia resolvido, e um dos líderes do Exército de Libertação do Sudão, Minni Minnawi, chegou a assinar o documento de trégua, mas os outros setores do seu grupo se recusaram a apoiá-lo. A fragmentação dos rebeldes é enorme. Embora sejam apenas duas grandes siglas, elas abarcam 18 diferentes facções.
A ONU se recusa a classificar o episódio como genocídio, argumentando que não há características de crime contra a humanidade e que se trata de um conflito intertribal. Organizações de direitos humanos contraargumentam. Para elas, está havendo, sim, uma limpeza étnica de natureza semelhante à ocorrida nos países da ex-Iugoslávia.
Entre as ações da ONU, uma foi embargar o comércio de armas. A outra, a decisão, depois de muitas sondagens, de enviar 26 mil homens para se juntarem aos soldados da União Africana, que tentam manter a ordem no local.
Ainda assim, há dúvidas sobre a capacidade da entidade de abrandar o que ela chama de "o maior drama mundial do momento". O governo sudanês vê as iniciativas com certa raiva. Afirma que não morreu tanta gente em Darfur, nada mais do que 9 mil pessoas. Sobre as fotos dos seus aviões levando armas para os jan jaweeds, o governo reagiu dizendo que as imagens eram peças pré-fabricadas para comprometer o Sudão.
Toda essa tragédia passou perto do Brasil, no princípio do ano, quando a ONU sondou o país para enviar tropas de paz para Darfur. "Impossível", afirmou o chanceler Celso Amorim, que alegou que o Brasil já está dando sua ajuda pacificando o Haiti. Mas, aos poucos, cresce um movimento mundial para evitar a continuidade do massacre. Brotam listas de solidariedade na internet. Inspiradas pelo trabalho em Timor Leste, entidades portuguesas estão na campanha online para interromper a tragédia.
Outro caminho de aproximação é o Google Earth, que, junto com o Museu do Holocausto de Washington, resolveu abrir uma janela para mostrar as atrocidades em Darfur.
Além disso, entidades religiosas norte-americanas, sobretudo as evangélicas, transformam o tema em bandeira.
Também nos parlamentos há ações. Um grupo de parlamentares europeus visitou a região e voltou impressionado com a falta de segurança dos que trabalham nas organizações humanitárias. Foram 43 raptos e 50 carros roubados só este ano. Há sempre o perigo de serem atingidos, suspenderem o trabalho e, nesse caso, a fome passaria a devastar os campos de refugiados.
Ministros da Europa já expressaram 54 vezes preocupação com o conflito, desde 2004. Apesar de todo o empenho internacional, há uma frustração dos observadores com o processo da paz em Darfur: o governo sudanês, apoiado economicamente pelos chineses - que também enviam armas e munição aos rebeldes partidários de Cartum -, não se comove com os discursos.
Se tudo o que foi feito até agora não resolveu, isso significa que o esforço de cada um de nós pode não alterar a correlação de forças. No entanto, reside aí a esperança de sobrevivência dos milhões que restaram naquela região da África.
O problema cresceu tanto na escala global que, com todos pressionando, pode surgir a esperança de paz na terra dos fur.
Por Fernando Gabeira (Deputado Federal pelo Partido Verde)
Fonte: Planeta Sustentável
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