A antidemocrática Inglaterra e o democrático Brasil
Por Marco Ferrari (premionacionaldeliteratura@ig.com.br)
Se no caso de Jean Charles a desumana polícia londrina não mostrou até hoje o exato momento da execução de esse pacato e ordeiro cidadão do país do samba e o futebol, em contrapartida, essa mesma corporação brasileira humanitária divulgou uma das suas tantas pelo You Tube para o mundo todo.
Todavia, se cronistas (ou jornalistas) ficarmos só na divulgação da notícia a secas, seriamos mais um pelas quais sua leitura daria em absolutamente nada, excluindo seu oportuno “click” do didatismo que nos proporciona a habitualidade de sua barbárie.
Porque, se a antidemocracia britânica alegando razões de “Segurança de Estado” no combate ao terrorismo só divulgou para o mundo a foto do seu cadáver, o Brasil democrático apresentou para o nosso planeta todo a seqüência completa daqueles vivos que segundo depois também seriam cadáveres e, o mais “proveitoso”, os passos e seguimentos mais racionais, técnicos e estratégicos para “fazê-los”.
Vê-se, pois, o policial goiano, sargento João Carlos Alves Brito como saca sua arma e atira primeiro contra o assaltante que estava no caixa. Em seguida, dispara contra o comparsa dele, que morreu na hora. Depois, o sargento voltou a atirar contra Luizmar, o assaltante que estava no caixa. Um dia depois da tragédia, a empresa funcionou normalmente, mas poucos clientes apareceram. Nos computadores e nos móveis, ainda havia as marcas do tiroteio.
Naturalmente que as explicações sobre “seguimentos mais racionais, técnicos e estratégicos para fazê-los” advêm a seguir, observando como o sargento (onde seguramente constam em sua ficha funcional muitos méritos por outros “fazementos”) sem se importar com o menor que está ao seu lado quase grudado ao seu lateral posterior esquerdo, aponta calmamente às costas do mais afastado que tentou assaltar e dispara.
Depois, (muitos depois, depois), gira e estoura o cérebro do menor em infração tremente ao seu lado.
Se o mundo viu um espetáculo e tanto de oportuna “fazeção”, menos feliz foi o comandante geral do organismo repressor goiano ao manifestar “agiu corretamente” posto que, a pena capital está formalmente proibida pela Constituição Pátria e, diferentemente ao que afirmou esse superior policial fardado, nem mesmo um policial fora do seu serviço pode andar armado onde exista aglomeração pública, do tipo escolas, faculdades, supermercados, igrejas etc.
É pelo crime previsível de periclitação de vida e vítimas reais que podem sobrevirem.
Sobre todas estas manifestações desencontradas que estabelecem as diferenças entre a antidemocracia britânica e sua antípoda brasileira, também se alça nos advertindo (e vão…) o que termina por acontecer quando estas “fazeções” evoluem para corriqueiras e se exportam para outros estados: Vítimas de assaltos a quem os delinqüentes descobrem ser policiais militares são executados na hora.
Rio que o diga com 38 deles executados por sê-lo.
Também São Paulo que, o ano passado, viu executados 27 deles em menos de 48 horas e, no que vai do ano quase 200.*
O tragicômico de este corriqueiro fica, no obstante, na notícia que difundiu a imprensa, em que horas depois que o proprietário da Lan House limpou as manchas de sangue com água oxigenada, e tampou os buracos de balas que transfixaram as paredes com “durepox”, a casa abriu suas portas como se nada houvesse acontecido.
*Os números são simplesmente aterradores: por ano cerca de 2.160 policiais militares são assassinados e feridos em todo país, o que dá ao Brasil a duvidosa honra de primeiro lugar mundial no número de policiais vitimados por criminosos. São Paulo é o estado que lidera disparado o ranking nacional de profissionais da área de segurança pública mortos por bandidos. No período compreendido entre 1º de janeiro de 1997 e 13 de junho de 2003, somente em São Paulo foram assassinados 1.226 policiais militares (sem contar os policiais civis). No mesmo período outros 4.376 policiais foram feridos, muitos dos quais ficaram permanentemente incapacitados, além de 176 que se suicidaram devido às pressões do trabalho. São números chocantes, que dão a noção exata de como anda a segurança pública no Brasil. Se os agentes da lei são alvo de tamanha matança, que dizer da população civil? (Fonte: Mídia Sem Mascara.org)
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