Construção sustentável: Adote esta idéia
Aos poucos, a possibilidade de ter uma casa de baixo impacto ambiental começa a conquistar adeptos. Construções que se sustentam sozinhas já são realidade para muitas famílias. Conheça dois exemplos de quem aproveita a natureza para servir à casa, inclusive como fonte de energia
A palavra sustentabilidade nunca esteve tão presente na sociedade. “Ela significa qualidade de vida, e a conscientização já começou”, declara Marcelo Takaoka, dono da Y. Takaoka Empreendimentos e presidente do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável, em São Paulo.
De acordo com o engenheiro Vanderley John, membro dessa instituição e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), alguns consumidores já estão relacionando as suas atividades diárias com os grandes impactos ambientais e sociais.
Para atender esses cidadãos mais conscientes, os fabricantes de materiais e as construtoras se preparam para uma demanda maior de ecoprodutos e de edificações verdes. Atualmente, 47 empreendimentos residenciais e comerciais buscam o LEED, certificado do Green Building Council Brasil oferecido às obras que adotam recursos como reúso de materiais e aproveitamento da água da chuva.
Nem só as construções de luxo procuram se adaptar aos novos tempos. No estado de São Paulo, uma parceria entre as Secretarias da Habitação e do Desenvolvimento vai incorporar o aquecimento solar e outras alternativas ecológicas às moradias populares da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU).
Quem se interessa em construir seguindo essa premissa deve ficar atento ao uso inapropriado do termo sustentabilidade, que se tornou um alavancador de vendas inclusive de materiais e empreendimentos não tão verdes assim.
“O ideal é se cercar de profissionais que dominem o tema e pesquisar muito até encontrar fornecedores sérios”, alerta o arquiteto paulista Dante Della Manna. Vale ressaltar que uma arquitetura preocupada com o meio ambiente também precisa considerar os aspectos sociais da obra. “Exigir nota fiscal ajuda a romper com a economia informal”, exemplifica a arquiteta Marcia Mikai, de São Paulo.
Saiba que os projetos não são resolvidos por um profissional só, e sim por equipes multidisciplinares, a fim de contemplar todas as fases da sustentabilidade. “Por ser diferenciado, ele custa cerca de 20% mais. No fim, porém, acaba sendo compensado pela qualidade da obra”, diz Marcia. Segundo Vanderley John, a questão é pensar em como viabilizar uma casa sustentável. “Há infinitas soluções. O importante é usá-las com inteligência e comprometimento”, completa Vanderley.
NO CAMPO
Antes de optar pelos dois sistemas, Tércio consultou atlas da região para descobrir o potencial eólico e solar. Durante o dia, a velocidade do vento supero 7m por segundo. Também é possível captar até sete horas de radiação solar diárias (Foto: Marcos Lima)
O refúgio idealizado pelo engenheiro Tércio Pacitti é perfeito para ele curtir os fins de semana com a esposa e as duas filhas: fica numa área rural, sem vizinhos por perto. Amante da natureza, ele aproveitou a falta de rede elétrica no lugar para erguer uma casa sustentável. Resolveu a questão energética com geradores eólicos e placas fotovoltaicas, que transformam o vento e o sol em eletricidade.
CONSTRUIR NO CAMPO
Foi o melhor jeito que o engenheiro Tércio Pacitti encontrou de curtir a natureza com a família. Ele descobriu o lugar por acaso, numa trilha de jipe pelas terras de Ouro Fino, no sul de Minas Gerais e a 220km de onde mora, em São Paulo. O lote de 22 mil m² tem água mineral abundante, que vai da nascente à caixa-d’água, e está a 1.400m de altitude, altura propícia para desfrutar a vista dos cafezais da região.
Tércio sabia que o lugar não dispunha de eletricidade, mas nem por isso pensou buscá-la a 4 km de distância. “Desde o início a idéia era respeitar o meio ambiente e aproveitar o vento e o sol para gerar energia mesmo gastando 30% a mais”, diz o engenheiro. Antes de erguer a casa principal, de 430 m², ele começou pela moradia do caseiro, com o intuito de testar a eficiência dos sistemas.
A arquiteta Ana Cristina Rosa o ajudou a bolar a planta e desenhar o telhado da casa principal. Feito o projeto, Tércio dimensionou o número de tomadas, lâmpadas e até de eletrodomésticos, a fim de quantificar a energia necessária. Duas turbinas eólicas e dez placas fotovoltaicas têm potencial para produzir mensalmente cerca de 600kWh (quilowatt-hora), considerando que uma família de quatro pessoas consome de 200 a 300kWh morando no imóvel. “Quando chove, já vi acabar a luz em outras casas, enquanto aqui nunca falta”, anima-se Tércio. Como as únicas fontes de energia vêm da natureza, é preciso economizar. Por isso, ele adotou lâmpadas de baixo consumo (24W). O ciclo de sustentabilidade completou-se com o uso de mão-de-obra local sob a supervisão semanal de Tércio.
ENERGIA GERADA PELO SOL
Além de oferecer eletricidade, os painéis fotovoltaicos podem se integrar à arquitetura da casa, substituindo até vidros e telhas. Por enquanto, o Brasil tem 100kW, contra os 1.200MW (megawatts) instalados da Alemanha só em 2006. Numa casa, o problema é o alto investimento inicial, que só se paga após 20 ou 30 anos. “É um valor equivalente a todas as contas mensais de luz de 30 anos”, compara o engenheiro Ricardo Rüther, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). “Só vale a pena quando não há rede elétrica no local e for preciso puxá-la de um poste a cerca de 3km de distância”, avalia. Segundo Ricardo, uma casa com o consumo mensal de 200kW deve dispor de cerca de R$ 24 mil na compra e instalação do sistema fotovoltaico.
DESCUBRA O POTENCIAL EÓLICO E SOLAR DA SUA REGIÃO
-Atlas Eólico Brasileiro e Potencial Solar - www.cresesb.cepel.br
-Laboratório Solar da Universidade Federal de Santa Catarina - www.labsolar.ufsc.br
ELETRICIDADE VINDA DO AR
Para gerar luz, é preciso ter vento numa velocidade mínima de 4m por segundo. “Isso acontece com mais facilidade na costa do Ceará, no interior baiano, em alguns lugares de Minas Gerais e no litoral catarinense”, explica o doutor em engenharia térmica Júlio Passos, da UFSC. Quem pretende instalar uma pequena estação em casa vai gastar R$ 5.959 na Altercoop, fabricante de aerogeradores em São Paulo. Esse kit eólico com turbina, torre, bateria e inversor atende uma família de quatro pessoas. O alto investimento inicial ainda atrapalha o avanço desse sistema, ao contrário do que acontece lá fora, onde os governos patrocinam a construção de parques eólicos para abastecer as moradias. “Só com essa ajuda a energia eólica se paga”, diz Júlio. Para ter um comparativo, o Brasil tem hoje 15 parques eólicos, com cerca de 250MW, contra os 22 mil MW da Alemanha, o país com maior poder eólico do mundo. No entanto, crescemos bastante se olharmos os 27MW de 2004.
QUEM OFERECE
Eólica e solar
São Paulo / Conergy - Unitron
Paraty, RJ / Energia PuraEólica
São Paulo / Altercoop
São Gonçalo, RJ / EnersudSolar
São Paulo / Solar Brasil
Rio de Janeiro / Kyocera Solar do Brasil
NA CIDADE
Na fachada, recursos que propiciam a passagem de luz para a sala: seis pequenas janelas e o brise de alumínio.(Foto: Marcos Lima)
Os contadores Andréia Ribeiro Dias e Oscar Bastos de Oliveira, pais de Natália, não queriam comprar uma casa pronta, mas sim construí-la sob medida. O projeto privilegia a vista do entorno, a entrada de luz e de ventilação naturais. Graças à sugestão do arquiteto, a família conta hoje com água aquecida por painéis solares e aproveita a água da chuva. Essas soluções resultaram em economia nas contas.
Viver na cidade, mas com os olhos voltados para a serra da Cantareira, na zona norte de São Paulo. A vista privilegiada foi decisiva na hora em que os contadores Oscar e Andréia escolheram o terreno de 318m², orientados pelos arquitetos Aquiles Miyamoto e Gilson de Carvalho, da Vautec Arquitetura, Urbanismo e Construção. Desde o princípio, os profissionais propuseram uma construção de menor impacto ambiental, a começar pelo mínimo corte de terra que venceu o declive de 7m.
“Aos poucos, nossos clientes percebiam que uma boa arquitetura, com ventilação e luz naturais, também poupa o meio ambiente”, explica Aquiles. A partir desse princípio consciente, surgia o sobrado de 500m² distribuído em três pavimentos e erguido em pouco mais de um ano.
Na fachada, o brise leva claridade para a sala de estar sem aquecê-la demais. Além disso, quase não há a necessidade de acender lâmpadas durante o dia. Preocupados em baixar o consumo de luz, os moradores adoraram a idéia de utilizar o sol para aquecer a água. Também veio dos arquitetos a sugestão de aproveitar a água da chuva em vasos sanitários, jardim e garagem. Concluída a obra, os proprietários comemoram o duplo resultado. “Além de beneficiar o meio ambiente, já conseguimos reduzir cerca de 30% a conta de luz no verão”, revela o contador, que também considerou a economia na hora de selecionar alguns acabamentos. Todos os banheiros têm torneiras automáticas com arejadores e bacias sanitárias de 6 litros, que reduzem o consumo de água.
APROVEITE A CHUVA
O número é atraente. Em residências, utilizar a água da chuva pode trazer uma economia de 65% na conta. “Mas é preciso garantir o bom funcionamento do sistema e estar de olho na sua manutenção e operação”, orienta o engenheiro Orestes Gonçalves, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP). “Em caso de vazamento, o encanador terá de saber que não pode confundir as canalizações potável e pluvial e pôr em risco a saúde dos moradores”, alerta o professor.
Para ele, antes de investir nesse recurso, é preciso refletir sobre a nossa cultura e começar por soluções mais simples, que reduzam o consumo dentro de casa e evitem desperdício. “Há tecnologias economizadoras, como válvulas de descarga de menor consumo, chuveiros e torneiras com arejadores”, sugere Orestes. “Se o consumo varia entre 180 e 200 litros por pessoa, porque não deixá-lo entre 100 e 130 litros”, provoca.
ÁGUA AQUECIDA PELO SOL
Popular entre os brasileiros, esse recurso ganhou ainda mais força este ano. Em julho, a prefeitura de São Paulo tornou obrigatório o uso de energia solar em sistemas de aquecimento de pelo menos 40% da água em novas edificações com quatro banheiros ou mais por unidade.
Foram colocados mais de 430 mil m² de coletores solares no país em 2006 e o mercado deve crescer 15% em 2007. Segundo Roberto Lamberts, o crescimento poderia ser maior se não fosse a frustração das pessoas que por desconhecimento ou falta de capacitação técnica instalaram errado o sistema.
“É comum encontrar coletores embaixo de árvores ou voltados para a face sul, a menos ensolarada”, diz Roberto. O caminho é procurar empresas e mão-de-obra associadas à Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava). Quanto ao preço, a implantação do sistema acrescenta de 0,5 a 1% do valor da obra, que se paga em até cinco anos, segundo Carlos Faria, diretor da Abrava.
QUEM OFERECE
Água da chuva
São Paulo / Acquabrasilis - Cirra - Perenne
Brasília, DF / Casa Autônoma
Energia solar
São Paulo / Cumulus - Soletrol
Barueri, SP / Heliotek
Birigui, SP / Transsen
Belo Horizonte / Tuma Industrial
Jaraguá do Sul, SC / Tecnosol
Fonte:Danilo Costa e Eliana Medina Revista Arquitetura & Construção
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