O Magnífico Reitor e seu lixo de luxo
O “magnífico” Timothy Mulholland (Foto: Roberto Fleury/UnB Agência)
Se tivesse conhecido a figura, Nelson Rodrigues decerto diria que Timothy Mulholland, reitor da Universidade de Brasília, desperdiça dinheiro público como quem chupa um Chica-Bon.
Para passear no carrão chapa-branca novinho em folha, gastou R$ 72 mil. Não achou muito. Para tornar mais refinado o apartamento funcional onde vivia, torrou R$ 470 mil. Achou até pouco. A gastança foi bancada pela Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos, vulgo Finatec, entidade de fomento à pesquisa vinculada à UnB. Desviado por comparsas homiziados na diretoria, acabou nas mãos de Mulholland um dinheiro originalmente destinado ao financiamento de trabalhos científicos.
O reitor achou muito justo. “A residência oficial também é usada para receber visitantes ilustres, como autoridades e professores de outros países”, foi a primeira lição. A segunda: “Não se mobilia uma casa de qualquer maneira”. Convencido de que quem recepciona tantos estrangeiros notáveis merece televisor de plasma, comprou logo cinco. Pagou quase R$ 3 mil por três lixeiras. Investiu R$ 859 num único saca-rolhas. Fora o resto. “Nada disso foi para mim, mas para a universidade”, esclareceu. Para que isso ficasse muito claro, deixou o apartamento funcional e montou acampamento em outro endereço. Como não deixou a reitoria, continuará a comandar recepções no lugar de sempre - e a impressionar a estrangeirada com o luxo do lixo ou com o saca-rolhas mais caro do sistema educacional planetário.
O presidente Lula não comentou o episódio. Faz sentido: se nestes cinco anos fechou-se em silêncio quando confrontado com escândalos bem mais cabeludos, não iria gastar a voz agora com um perdulário aprendiz. O Ministério da Educação fez de conta que a UnB funciona em outro país. No Congresso, oposicionistas e situacionistas seguiram o exemplo de Lula. De novo, faz sentido: quem vive lidando com gatunos de grosso calibre não perde tempo com trombadinhas.
A exceção ficou por conta do senador Cristovam Buarque, que tratou do caso na tribuna. Ex-ministro da Educação e ex-reitor da UnB, Buarque criticou duramente o pecado. Com igual veemência, absolveu o pecador. Pelo conjunto da obra, argumentou o senador, para quem Mulholland tem feito, desde 2005, “um belo trabalho”.
Os diretores envolvidos na pilantragem foram afastados da Finatec pelo Ministério Público do Distrito Federal e terão de explicar-se à Justiça. Longe de microfones e holofotes - e, por enquanto, distante dos tribunais - Mulholland reza para ser esquecido pelo país que só soube há pouco mais de um mês que o nome do reitor da UnB é essa floresta de consoantes onde vogais parecem uma espécie em extinção. É improvável que seja devidamente castigado.
Primeiro, porque esta é a pátria da impunidade. Segundo, porque no Brasil é possível delinqüir dentro da lei. Terceiro, porque a memória da gente da terra, além de historicamente fraca, não tem espaço para abrigar tantos prontuários. Mesmo quem decora até asterisco de livro acaba se atrapalhando com o tamanho e a velocidade do desfile da bandidagem. Quando uma ala começa a evoluir no noticiário político-policial, outra já está em aquecimento na concentração.
Se é que existem, cabem numa van os brasileiros capazes de recitar a escalação do bando dos 40, aquele timaço convocado pela Procuradoria-Geral da República. E não há cabeça com suficientes gavetas para memorizar os integrantes de tantas tribos: mensaleiros, sanguessugas, pilotos de ambulâncias, negociantes de dossiês, construtores de pontes sobre rios inexistentes - é coisa demais. No meio de tamanha multidão, pode acabar escapando do merecido castigo o homem que hoje governa a universidade nascida da criatividade de Darcy Ribeiro.
Se estivesse vivo, o inventor da UnB se sentiria afrontado pela presença de Mulholland no gabinete que ocupou. E ficaria perplexo com o estrepitoso silêncio dos autores da afronta: o reitor foi eleito, por maioria absoluta, pelo voto direto de professores, funcionários e estudantes.
A escolha, sabe-se agora, foi uma agressão à inteligência nacional. A mudez dos agressores os transforma em criminosos reincidentes. E comprova, lastimavelmente, que os universitários da UnB merecem a UNE que têm.
A entidade ainda tenta escapar da sepultura, mas está morta há muitos anos. Os estudantes deixaram de existir fisicamente. Seguem respirando, mas só na internet. Em vez de berrarem no campus o que os brasileiros decentes pensam do chefão da UnB, limitam-se a balbuciar protestos na telinha. Graças ao computador, Mulholland continua reitor.
Por Augusto Nunes - Diretor Editorial - Grupo CBM para a Gazeta Mercantil
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