Raúl Castro: O passo a passo de uma nova revolução
Todos os dias, os cubanos se vêem em meio a uma série de pequenas mudanças, incentivadas por Raúl Castro, que discreta e gradualmente tem implantado novos paradigmas na vida cotidiana da ilha.
Informados pelo que chamam de "rádio bemba" (comentário boca a boca), milhares de cubanos foram às lojas para comprar ou simplesmente verificar os preços de uma série de produtos eletrônicos, com venda restringida desde 2003 devido ao déficit energético do país, segundo explicações oficiais.
Panelas de pressão elétricas, DVDs, vídeos e motos começaram a ficar novamente disponíveis. Em breve, haverá também computadores, microondas e outros, que devem chegar às lojas a qualquer momento. "Agora nós, cubanos, temos outras opções e assim se resolve um pouco a alternativa do transporte", disse o animado Raydel Leyva, 42, depois de investir suas economias numa moto de US$ 858, em Havana. "Acredito que todas essas medidas vieram para melhorar a vida do povo e nos fazer sentir melhor vivendo no nosso país", disse Leyva, que não quis revelar por quanto tempo juntou dinheiro para comprar a moto.
Com uma renda média de US$ 17 por mês, os cubanos não podem comprar muitos dos novos itens à venda, mas mesmo aqueles que não têm condições se alegraram com a mudança. "Os preços são astronômicos. Mas pelo menos eu tenho essa opção, e posso economizar para comprar o que quero. As pessoas vão trabalhar mais para comprar esses artigos", disse Gelis, instrutora de tênis autônoma.
Os produtos mais vendidos eram os de menores preços, como as panelas de pressão, cujo valor ia de US$ 17 a US$ 54, e os aparelhos de DVD da holandesa Philips e da japonesa Panasonic, que custavam entre US$118 e US$ 162 dólares – mais caros do que em outros países, mas bem mais baratos do que no agitado mercado negro de Cuba.
Já os aguardados computadores e laptops da Dell e teclados e mouses da Microsoft foram retirados das lojas antes da venda começar, até que sejam fixados os preços. Ainda não está claro quando começa a sua venda.
A comercialização desses produtos é uma das proibições derrubadas por Raúl Castro, cinco semanas após ter sido eleito indiretamente presidente em substituição a seu irmão, Fidel, que desistiu da reeleição devido a seu debilitado estado de saúde.
Na segunda-feira, os hotéis cubanos, reservados exclusivamente ao turismo internacional desde 1993, voltaram a abrir suas portas aos hóspedes cubanos. A medida deve atrair para o país cubanos residentes no exterior, que viriam visitar a família. Da mesma forma, cubanos agora também poderão alugar carros e já circulam rumores de que a comercialização de automóveis particulares seria liberada em breve.
"Essas medidas são mais políticas que econômicas. Quem vai querer ir a um hotel ou alugar um carro? Mas ficamos felizes em saber que agora temos a liberdade de fazê-lo", comentou Alfredo Rodines, um engenheiro de 43 anos. No dia próximo dia 14, começará a venda livre de linhas para telefones celulares, única das medidas anunciadas na imprensa.
Raúl pratica uma tática de avanço passo a passo, sem publicidade ou sobressaltos. Em julho, quando ainda era presidente interino, anunciou a necessidade de realizar mudanças e reformas, inclusive estruturais, na economia, em busca de mais eficiência. Raúl Castro sucedeu o irmão no dia 24 de fevereiro, prometendo acabar com as "proibições excessivas" no cotidiano de Cuba. Logo permitiu, além dos eletrodomésticos, o acesso a celulares e a hotéis antes reservados apenas a estrangeiros.
Um debate nacional, lançado por Raúl, um militar com fama de pragmático, organizado e bom administrador, deu margem a fortes expectativas por parte da população, que ele se encarregou de moderar e de incentivar ao "trabalho duro" para que o país avance. Além disso, com a economia planificada, tendo prepoderância estatal nos meios de produção, os cubanos também estão abrindo os olhos para a economia informal, atuante na ilha há décadas. Cuba é um país pequeno, pobre, sem recursos naturais expressivos, onde o regime comunista pouco operou mudanças com relação à diversificação da economia, basicamente escorada na cana-de-açúcar.
Uma das poucas matérias-primas exploradas é o níquel. Além disso, a maior parte do petróleo que recebe é subsidiada, de procedência da Venezuela, um privilégio assegurado pela aliança entre o regime e o presidente daquele país, Hugo Chávez, que freqüentemente visita a ilha.
Fonte: O Povo, Reuters via Estadão
Ainda é muito cedo para que se possa precisar até onde vai esta abertura, de qualquer modo, e contrariando as expectativas, Raúl não está sendo um mero substituto do irmão Fidel.
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