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Olhar Global

Visão_Global Nosso articulista Marco Ferrari, levanta a questão: Por que no Brasil é dada tão grande importância ao episódio da Inconfidência mineira, e se coloca no ostracismo, o episódio seminal do Descobrimento do Brasil, ou o "achamento" do Brasil, como querem alguns?

DescobrimentodoBrasil-Portinari

Descobrimento do Brasil - 1956 (Cândido Portinari, painel a óleo/tela, 199 x 169 cm, Banco Central do Brasil, Brasília, DF)

marcoferrari-thumb1 Marco Ferrari (premionacionaldeliteratura@ig.com.br)

O Brasil não sobressai só de todos os paises da América Latina por não ter o idioma espanhol como sua língua vernácula, senão por uma estranha ausência de referências históricas firmes e representativas para aspirar a uma insuspeita identidade nacional de consenso e igual orgulho, como se vê expressamente patente nas homenagens que lhes demanda os dias 21 e 22 de Abril de cada ano.

Numa dessas datas, o dia 21 de Abril nasce seu Herói Nacional e, o dia 22 do mesmo mês o princípio do seu todo: O Brasil. Enquanto em todos os paises da América se celebra com a maior honra o dia da sua gestação e com igual entusiasmo o de seu Prócer Máximo, parece haver um consenso cá no Brasil, em que um merece maior dádiva de reconhecimento, em quanto à epopéia Cabralina praticamente nenhum.

Por isso, e procurando entender essa ambigüidade, é bom fazer um breve registro da história levantando sucintamente seus passos transcorridos ao respeito, para procurar elucidar a validez desta interpretação tão contraditória.

Cada um dos chamados descobridores das diversas partes da América que oficialmente descobrira Cristóvão Colombo arribou as costas deste continente logo de mil peripécias, onde a ambição andava lado a lado com o ignoto, a fome, as doenças e a morte, e os filhos e netos desses nautas nasceram e morreram em centenas de batalhas para a conquista da sua independência, sendo a partir delas e seus feitios de glória de onde foram despontando seus heróis nacionais.

Já o Brasil que havia aceitado a monarquia portuguesa em troca de sesmarias continentais e títulos nobiliários, sem o disparo de um só tiro, o degolar de nenhuma espada nem o rugido de canhão nenhum, surge livre no grito de Ipiranga. Começara a surgir a pátria e a busca frenética por um Herói Nacional. Houveram de fato vários confrontos em definir tal titularidade, pois, sempre, de alguma maneira, eram-lhe achadas aos seus postulantes algumas (in)conveniências de origens sociais, econômicas e políticas. Os debates da escolha se estabeleciam entre os partidários de fincar o máximo heroísmo da pátria entre Frei Caneca, Bento Gonçalves, Deodoro e por fim Tiradentes, este de fácil maleabilidade e colocação a esses apelos, a quem a pintura e a gravura destacavam seu simbolismo republicano, a vez que sua caracterização da face que se tinha de Jesus Cristo foram atraindo simpatias e adesões populares a um povo absolutamente católico.

Tanto isto é verdade que, mais de 50 anos após da Independência do Brasil levantou-se em Ouro Preto um monumento em sua memória por iniciativa do Clube Tiradentes e a sanção do Presidente da Província de Minas Gerais, Joaquim Saldanha, convertendo-se o dia 21 de abril feriado nacional. Recém em 9 de dezembro de 1965 em decorrência da lei 4.867, Tiradentes foi declarado Herói Nacional.

Para concluir estas linhas que indagam visando colaborar e esclarecer o porquê do nascimento de um país, de uma pátria, ficam relegados de memória e homenagem para a figura de um homem que a exegese da história diminui de relevância, tomemos como referência as palavras do mais importante historiador inglês contemporâneo Kenneth Maxwell a seu respeito, a partir de alguns fragmentos literais extraídos do seu livro “A Devassa da Devassa”. O autor começa descrevendo cada um dos participantes da chamada Inconfidência mineira, apresentando-os como endividados membros da plutocracia, em conflito com um governo cada vez mais rígido principalmente no que cerne à cobrança de tributos. É a partir daí que se dá a desmistificação do movimento.

O capítulo “Conspiração” é uma descrição quase em tom de romance, não fossem os vários e precisos dados apresentados pelo autor, da preparação da tentativa de revolução. Descrição física, detalhamento de horário, composição do cenário, números das dívidas. Tudo é descrito. E é nesse momento que aparece com força a tese do autor de que Inconfidência foi movida única e exclusivamente por motivos pessoais, por homens que viam na proposta de um Estado independente a única solução para seus problemas bem menos nobres que uma preocupação ideológica de fundo nacionalista.

O nacionalismo era sim exaltado, mas como veículo natural para uma revolução que buscava a independência. E o povo também era convocado por razões não menos óbvias, como coloca o autor: “A conspiração dos mineiros era, basicamente, um movimento de oligarcas e no interesse as oligarquia, sendo o nome do povo invocado apenas como justificativa.”

Não sobra ninguém em sua história.

Tiradentes foi o bode expiatório escolhido pelas autoridades portuguesas: “Não era influente, não tinha importantes ligações de família, era um solteirão que passava a maior parte de sua vida à sombra de protetores mais ricos e bem-sucedidos”.

Para Maxwell, Tiradentes era um homem cheio de ressentimentos, ambicioso, lutando por uma ascensão social dentro da estrutura implantada pela coroa portuguesa. Assim, afirma que: “Era óbvia a sedução que o enforcamento do alferes representava para o governo português: pouca gente levaria a sério um movimento chefiado por um simples Tiradentes”.

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