Cabinda: Um inferno para os angolanos
Foto: Rui Neumann
Cabinda – Angola continua a negar a existência de uma guerrilha ativa no interior de Cabinda, a equipe de António Bento Bembe defende a mesma teoria com o intuito de manter válidos os seus compromissos com Luanda.
Na realidade a Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) está em atividade no interior de Cabinda. Uma rajada de metralhadora seguida de vários tiros isolados durante mais de uma hora. "Não há problema" garantiu Asas, um dos comandantes da FLEC na região centro de Cabinda, "são tiros do inimigo, eles nunca sabem onde estamos, e a patrulha das FAA tem de gastar munições para não voltarem ao quartel como o mesmo número de cartuchos". Passado o tiroteio, onze guerrilheiros levantaram-se e prosseguiram a caminhada pelo mato.
"Se houvesse uma estrada que ligasse Cabinda a Angola, todos os soldados angolanos já tinham partido a pé para casa" disse Pirilampo sorrindo. "Isto é um inferno para os angolanos. Os soldados já compreenderam que é impossível nos localizarem e quando eles se aproximam das nossas bases o Maiombe é a nossa fortaleza", prosseguiu Pirilampo enquanto caminhava com a sua Galil ao ombro, "eles ficam presos nos pântanos e tornam-se num alvo fácil, enquanto eles desperdiçam munições, nós poupamos, e nos pântanos basta uma bala por soldado inimigo. Nós já ouvimos muitas vezes os soldados se recusarem atravessar os pântanos, e dizerem ao oficial para atravessar ele primeiro, o que nunca acontece. Então disparam para todos os lados e retiram enquanto nós observamos a cena".
É verdade, confirmou rindo "Leão", jovem guerrilheiro de 22 anos, "eles falam mal português, em vez de ’sim’ dizem ‘ya’, em vez de velho é ‘kota’, além disso fumam muito e pelo cheiro não é difícil saber por onde andam ou por onde passaram". Em silêncio "Anti Tanque" empunhando a sua RPG7 ouvia "Leão" e ria confirmando com a cabeça. Mais de sete horas de marcha contínua, assediados constantemente por mosquitos, moscas filar e outros insetos, evitando as várias minas colocadas por Angola, chegamos finalmente ao Comando da base de Inhuca, depois de ter passado vários pontos avançados de vigias e proteção que constituem o perímetro de segurança.
Apesar da significativa superfície ocupada pela base a densa mata constitui a melhor camuflagem. Nenhuma base permanece longos períodos no mesmo local e são continuamente transferidas mantendo-se sempre na mesma região militar. O fato de receberem um "branco" obrigou à deslocação imediata da base para outro local após a reportagem.
Contrariamente às informações difundidas por Angola que garantem que "já não existe uma guerrilha ativa no interior de Cabinda", o Comando da base de Inhuca conta com mais de duas centenas de guerrilheiros os quais substituem diariamente outros que estão na frente de combate, "estamos presentes em todo o território" confirmou o primeiro chefe adjunto do Chefe de Estado Maior Geral das Forças Armadas de Cabinda, Silvestre Luemba, aliás Comandante SL.
A rigorosa organização, disciplina militar e respeito das hierarquias na base contraria também as notícias difundidas por Luanda que tenta qualificar a FLEC de ‘bandidos e terroristas’. Ainda não conseguira o sol penetrar pelas brechas das árvores do Maiombe dezenas de guerrilheiros se apresentam em formatura na parada da base e perante os superiores entoam o "hino nacional": ‘Cabinda pátria imortal a tua glória está nos teus filhos, baluarte invencível…’.
Logo após o hino são afixadas numa árvore junto à parada as ordens de serviço do dia e as missões. Entretanto chegam guerrilheiros da linha de frente que foram substituídos por outros que tomaram posições durante a noite.
Começa mais um dia na guerrilha do interior de Cabinda enquanto nos luxuosos escritórios de Luanda o Governo angolano insiste que ela ‘já não existe’.
Fonte: Rui Neumann para Luanda Digital



