Mianmar mantém internet bloqueada
Bangcoc - A Junta Militar de Mianmar (antiga Birmânia) mantém, pelo segundo dia consecutivo, o corte do serviço de internet, em uma nova tentativa de isolar o país antes da visita do enviado especial das Nações Unidas para Mianmar, Ibrahim Gambari.
Monges sentam na rua diante de paredão formados por soldados em Mianmar (Foto: Reuters)
Mesmo com as ruas de Yangun e das principais cidades em aparente calma, a conexão à internet continuou suspensa pelo resto do dia, segundo confirmaram usuários e fontes da Bagan Cybertech, o provedor associado ao Estado. O bloqueio começou no início da manhã de ontem, após a ordem dada pelo Escritório de Serviços Informáticos do Ministério da Defesa, órgão responsável também por acompanhar e-mails e conversas telefônicas.
Durante as últimas duas semanas, membros da oposição aumentaram suas atividades na internet para fazer chegar à comunidade internacional suas denúncias sobre a repressão e pedir uma maior pressão sobre a Junta Militar birmanesa. A medida foi tomada um dia depois de cerca de 100 monges se manifestarem na localidade de Pakokku, cerca de 550 quilômetros a noroeste de Yangun. Foi o primeiro protesto em um mês, desde que as forças de segurança reprimiram as manifestações em favor da democracia. A repressão militar iniciada em 5 de setembro deste ano contra os monges de Pakkoku, um dos enclaves budistas mais importantes de Mianmar, fez surgir inúmeras manifestações em dezenas de cidades de todo o país.
Segundo disseram vários monges à rádio "Mizzima", após a manifestação pacífica ocorrida em Pakkoku, autoridades militares fizeram uma nova advertência aos religiosos para que abandonem a idéia de retomar as manifestações. "As autoridades ordenaram aos administradores dos mosteiros que tenham maior rigidez no controle dos monges", declarou um religioso à rádio.
O corte de internet e o protesto pacífico antecedem a visita oficial de Ibrahim Gambari, que a partir de amanhã deve se reunir com um "amplo leque de representantes da sociedade birmanesa", segundo um comunicado divulgado pela ONU nesta semana. A visita de Gambari acontece em meio a um aumento da tensão entre a Junta Militar e as Nações Unidas por causa do comunicado emitido em 24 de outubro pela missão da ONU em Yangun, o qual dizia que as preocupações do povo birmanês "foram expressas claramente nas recentes manifestações pacíficas".
O regime militar reagiu com uma nota de repúdio e chamou o chefe da missão da ONU no país, Charles Petrie, para ir a Napydaw, a capital administrativa, onde teve negada a renovação de sua nomeação quando o prazo desta expirar, segundo fontes diplomáticas européias.
Gambari - que visitou Mianmar pouco depois de as forças de segurança terem contido violentamente as manifestações ocorridas no final de setembro deste ano - fez uma viagem oficial por diversos países da Ásia nas últimas duas semanas, passando inclusive por China e Índia, os maiores aliados do Governo militar birmanês. Em suas reuniões com representantes dos Governos asiáticos, Gambari buscou apoio para a iniciativa da ONU em busca da reconciliação nacional e da transição rumo à democracia em Mianmar, governada pelos militares desde 1962.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, declarou na quarta-feira passada que, durante a visita de Gambari, serão promovidas "medidas democráticas por parte do Governo de Mianmar, incluindo a libertação dos presos políticos". Segundo a versão oficial, as autoridades libertaram quase 2.500 pessoas do total de 3 mil que foram presas durante e após as manifestações de um mês atrás.
A dissidência birmanesa, por outro lado, sustenta que mais de 6 mil pessoas foram detidas, e várias centenas estão na prisão de segurança máxima de Insein, nos arredores de Yangun, onde estão detidos a maioria dos cerca de 1.100 birmaneses presos por seu ativismo político anterior às manifestações.
Fonte: Último Segundo



