Blogueiro acusado de subversão é preso na China
Preso desde dezembro, Hu Jia pode ficar até três anos na cadeia
No dia 27 de dezembro, duas dezenas de agentes de segurança invadiram a casa pequinesa onde Hu Jia, um conhecido ativista de direitos humanos, vivia com a mulher e a filha, bebê. Formalmente acusado no dia 28 de janeiro de “incitar a subversão” por meio de seu blog na internet, Hu pode pegar pena de três anos. Sua prisão deu publicidade a um tema desagradável para as autoridades chinesas: uma suposta “faxina” que está sendo feita no país, a seis meses dos Jogos Olímpicos, para livrar o evento de protestos políticos incômodos.
Hu, um homem frágil de 34 anos que sofre com problemas no fígado, é um dos ativistas chineses mais conhecidos no Ocidente. Tornou-se notório inicialmente pelo trabalho com vítimas da aids. Como na China organizações não-governamentais são proibidas, Hu age individualmente. Aos poucos, ele voltou sua atenção para os abusos dos direitos humanos. Um documentário postado por ele na internet, Prisoners in Freedom City (“Prisioneiros na Cidade da Liberdade”), mostra um período em que ele, a mulher e a filha passaram em prisão domiciliar, em 2006 (Freedom City é, ironicamente, o nome do conjunto habitacional onde Hu mora e ficou preso).
No fim do ano passado, Hu havia participado de um chat com os deputados europeus, em que denunciou a presença no comitê organizador dos Jogos de um membro dos serviços de segurança chineses. O Parlamento Europeu e o Departamento de Estado americano condenaram a prisão de Hu.
Muitos ativistas políticos chegaram a comemorar a decisão de atribuir os Jogos Olímpicos de 2008 à China, vendo nela uma oportunidade de abertura política. Afinal, os Jogos realizados em Seul em 1988 haviam contribuído para a democratização da Coréia do Sul. Mas, à medida que os Jogos se aproximam, o número de prisões por “perigo à segurança do Estado” tem aumentado. Segundo Frank Ching, um jornalista independente de Hong Kong, foram 296 em 2005 e 604 em 2006. A estatística de 2007 ainda não está disponível, mas Ching acredita que o número cresceu. Segundo a organização Repórteres sem Fronteiras, 35 jornalistas e 51 “cyberdissidentes” estão atrás das grades. Na quarta-feira 6/2, o ativista pró-democracia Lu Gengsong foi condenado a quatro anos de cadeia por atividades subversivas.
A internet tem sido uma saída para os dissidentes expressarem idéias democráticas, mas na China nem a nova tecnologia está livre da censura. Calcula-se que 30 mil funcionários do governo monitorem os milhões de blogs e sites chineses. Essa organização foi apelidada de Great Firewall (“O Grande Firewall”), um trocadilho com o nome em inglês da Muralha da China (“Great Wall”). Aparentemente com receio de perder um mercado potencial de 1 bilhão de pessoas, empresas ocidentais, como Google e Microsoft, aceitaram formas de censura nas versões chinesas de seus sites. O Yahoo!, na China, cedeu ao governo informações confidenciais de seus usuários.
Fonte: ANDRÉ FONTENELLE para a Revista Época
Enquanto isto, boa parte da grande mídia ocidental fica tecendo loas ao fantástico crescimento econômico da China, sem mencionar que tal crescimento é obtido através da exploração de milhões de chineses, da contaminação do meio ambiente, da exploração irracional dos recursos naturais. E pior de tudo, privando a liberdade de expressão das mentes conscientes que revelam e denunciam tais barbaridades.



