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O nascimento "real" do Brasil

02/12/2007 Publicado por: Xico Lopes Categorias: Análises & Avaliações, Brasil, Cidades, Comportamento, Curiosidades, Datas & Acontecimentos, Documentos, Estudos, Estatísticas & Relatórios, Entrevistas, Escritores, História, Livros, Portugal, Práticas, Usos & Costumes, Rio de Janeiro, Salvador, Sociedade No Comments →

 

DomJoaoVI

Dom João VI

Há quase dois anos, o embaixador Alberto da Costa e Silva, poeta, escritor, acadêmico, africanista, foi convidado pelo prefeito Cesar Maia para coordenar a Comissão para as Comemorações da Chegada de D. João e da Família Real ao Rio de Janeiro.

Com sede no Palácio da Cidade, a Comissão começou trabalhando devagar, com assessoria na parte musical do maestro Edino Krieger e na histórica de Lilia Moritz Schwarcz (a cujo trabalho se juntou Lucia Garcia).

Foram ouvidas muitas idéias e preparou-se uma ampla programação, que inclui a entrega de igrejas restauradas — o ponto central da festa, diz Costa e Silva —, espetáculos musicais e teatrais, exposições e lançamentos de livros.

O Rio de Janeiro de D. João começa aos poucos a ressurgir em todas as suas cores, sabores e magnificência. Em eventos que se iniciam já agora e se estendem ao longo de todo o ano que vem, a cidade reassume ares de corte para celebrar os 200 anos da chegada da família real.

A Praça XV, que centralizava grande parte da rotina dos nobres portugueses no balneário subitamente promovido à categoria de centro de um império, será o palco principal da programação. Em frente ao Paço Imperial, a igreja da Ordem Primeira do Carmo, a antiga Sé, totalmente restaurada será reaberta em março.

Um pouco antes disso, em dezembro, vão ser concluídos os trabalhos de restauro da estátua eqüestre de D. João. Não muito longe dali, no bairro da Glória, são finalizados também os trabalhos de restauração do Outeiro da Glória, freqüentado pela família real, e do monumento em homenagem à abertura dos portos, localizado em frente ao Hotel Glória. Obras também estão em fase de conclusão na Fazenda Santa Cruz, na zona oeste.

Com os principais cenários devidamente recuperados, entram em cena os protagonistas dessa história que transformou por completo a cidade. A chegada da família real, a aclamação e, finalmente, a partida de D. João serão encenados na Praça XV em espetáculos públicos sob a direção de Moacir Chaves.

O testemunho dos grandes pintores do período também será requisitado para recuperar parte do cotidiano da corte.

— O Museu Nacional de Belas Artes está colaborando estreitamente conosco. Vamos fazer uma grande exposição, uma grande retrospectiva, em maio e junho, do Taunay, o maior pintor que Dom João trouxe para o Brasil — contou Alberto da Costa e Silva, coordenador da Comissão para as Comemorações da Chegada de D. João e da Família Real ao Rio de Janeiro.

— A Casa França-Brasil, com a Fundação Castro Maya, está organizando uma exposição de Debret que será muito bonita, logo depois da exposição do Taunay. E o Museu Histórico Nacional vai inaugurar no dia 7 de março uma grande exposição sobre D. João e a vinda da família real para o Brasil.

O Museu Imperial de Petrópolis segue a mesma linha e, recriando uma embarcação similar à usada na travessia, pretende levar ao público as histórias da viagem marítima.

“Sonhos de João” é outra mostra prevista, destinada a retratar as idéias do rei.

À parte os mitos criados sobre a glutonia de D. João e seu voraz apetite por frangos, diversos restaurantes do Rio estão lançando cardápios inspirados na cozinha joanina, sob a coordenação de Flávia Quaresma. As receitas estarão também em livros. Outros lançamentos sobre o período também estão previstos.

Nesta entrevista, concedida em seu apartamento de Laranjeiras, Costa e Silva conta quais são os princípios que inspiram a ação da comissão e como, à medida que o trabalhou avançou, foi tomado de admiração ainda maior por D. João VI.

Toda a equipe da comissão, conta o embaixador, surpreendeu-se com a fecundidade do período — cujo aspecto negativo foi o intensíssimo tráfico de escravos e o prestígio dos traficantes, que financiaram a Corte recém-instalada no Rio.

O GLOBO: O que norteia a ação da comissão dos 200 anos?

ALBERTO DA COSTA E SILVA: Desde o início, o ponto básico era centrar nossa ação na presença do D. João no Rio.

Queríamos mostrar como o Rio passa a ter centralidade na vida brasileira: um vilarejo no fim do mundo se transforma na capital de um império importante. Também queríamos algo permanente, que ficasse depois de 2008, e pensamos no restauro da Igreja da Ordem Primeira do Carmo, a antiga Sé, que foi catedral por muitos anos e historicamente é a mais importante igreja do Brasil.

Nela, D. João foi o primeiro rei a ser aclamado nos trópicos, D. Pedro I casou-se com Dona Leopoldina e foi coroado imperador, assim como D. Pedro II.

O restauro, durante o qual fizemos descobertas arqueológicas, é o ponto central das comemorações e será entregue à cidade em 8 de março.

Quisemos, também, que as comemorações ficassem centradas na Praça XV, onde o príncipe desembarcou e viveu primeiramente. Vamos ainda lançar uns 20 livros, mas muita coisa está surgindo.

Posso dizer que nosso objetivo já se cumpriu: chamamos atenção para a chegada da família real. Agora, a visão sobre D. João passa a ser inteiramente diferente: pode ser crítica, com vários tons, mas deixa de ser caricatura para virar o retrato de um ser humano importante para a vida brasileira, que gostava do país e o transformou profundamente.

Como foi mudando a sua visão de D. João?

COSTA E SILVA: Sempre tive uma visão positiva dele, mesmo porque li cedo o livro de Oliveira Lima, que começa com a frase famosa, de que D. João foi o rei mais querido dos brasileiros.

Era bonacheirão, afável, mas a figura dele ganhou dimensão para mim. Passei a compreendê-lo como cauto, cuidadoso e criterioso.

Um rei que sabia ouvir seus conselheiros, o que é raro num homem de Estado. O mais curioso foi a compreensão — e isso se deu com os outros membros da comissão — da fecundidade do período.

D. João organiza o país: ele cria a Justiça, as Forças Armadas, as primeiras escolas universitárias, o primeiro jornal, a Biblioteca Nacional, o Jardim Botânico, o Museu Nacional.

Quase todas as entidades brasileiras importantes completarão 200 anos em 2008 ou nos próximos anos. D. João também traz a música européia e, com a Imprensa Régia, que publica importantes livros, lançam-se as bases para uma literatura nacional.

A admiração por D. João superou a por D. Pedro II?

COSTA E SILVA: D. Pedro II herdou muito do avô, D. João, e D. Pedro I herdou muito da mãe, Dona Carlota Joaquina. Pedro I era estouvado, atrevido, excessivamente entusiasmado, ao passo que Pedro II era ponderado, tinha muito do temperamento cauto do avô.

O período monárquico está em voga, haja vista o sucesso dos livros a respeito. A que atribui a valorização?

COSTA E SILVA: Depois de longo esquecimento, derivado da República, estamos reavaliando o século XIX monárquico. É algo mais realista, com base em fatos e documentos, observando o que o período representou para a formação do sentimento de ser brasileiro e reconhecendo no velho imperador Pedro II um amigo das liberdades, que nunca agiu contra a propaganda republicana. Foi um estadista que assegurou as liberdades neste país como depois poucos haveria. Foi um imperador democrata. E o que o século monárquico representou para o Brasil em termos de crescimento econômico e expansão social só é abafado pela escravidão, que ensombrece todo esse período. Mas Pedro II não era simpático à escravidão; ao contrário, considerava um empecilho ao progresso brasileiro. O Império não tinha condições políticas para que ela fosse abolida antes e, quando conseguiu, logo se seguiu o golpe de Estado que lhe deu fim.

O senhor é um grande especialista em África. O que observou sobre o período joanino no que se refere à escravidão?

COSTA E SILVA: Para começar, foram os anos em que mais escravos entraram no país. O tráfico de escravos foi muito intenso.

Haverá outros em que terá sido talvez mais intenso, mas o joanino supera os períodos imediatamente anteriores. Calcula-se que 440 mil tenham vindo nessa época. E por quê? Houve vários fenômenos. Nesse período, na maioria das nações européias e nos EUA, coincidindo com a vinda de D. João, proíbe-se o tráfico de escravos, inclusive na Inglaterra. Nos portos africanos, os barracões de escravos não têm mais a quem vender sua mercadoria e o preço cai fortemente. No Brasil, o que ocorre? O contrário: o preço sobe.

A Inglaterra firma acordos com Portugal que restringem o tráfico negreiro. Em 1808, fica claro que o tráfico está com os anos contados. A perspectiva de retração da oferta faz com que o período joanino seja extremamente próspero para os mercadores de escravos.

A maioria desses escravos vem para o Rio mesmo?

COSTA E SILVA: Há muito tráfico para Bahia, Pernambuco, Rio. Mas no Rio procede algo curioso: o prestígio dos traficantes de escravos.

Um deles é José da Silva, que transfere para D. João sua propriedade em São Cristóvão, onde se instala o palácio. Veja que ao oferecer sua propriedade este negreiro já tinha uma das melhores casas da cidade.

Qual o papel desses comerciantes de escravos?

COSTA E SILVA: As despesas para a manutenção do Estado crescem e quem as financia são os grandes mercadores, cuja maioria comerciava escravos.

Muitos são nobilitados e ingressam na Corte. Ora, depois de 1850, quando os traficantes de escravos passam a ser objeto de opróbrio, aqueles antigos comerciantes já eram nobres — viscondes, marqueses, barões e não mais se confundiam com os que passaram a ser chamados de contrabandistas. Há muita coisa a ser descoberta sobre como atuou o escravismo brasileiro entre 1808 e 1821.

Há uma gênese social…

COSTA E SILVA: Sim, com D. João, cria-se um novo tipo de elite — intelectual, comercial e econômica. Há uma nova elite social, com novos padrões de comportamentos. Por exemplo, os femininos: as mulheres viviam atrás das gelosias, dos muxarabis — e quem proíbe os muxarabis? No período joanino, substituem-se os gradeados das janelas, para que as mulheres pudessem ver sem serem vistas, por janelas de vidro. As mulheres passavam a maior parte do tempo em casa e saíam só para ir à missa, dentro de cadeirinhas, landaus ou coches. Nesse período, começam a ir à Rua Direita fazer compras e mais tarde à Ouvidor. Instalam-se no Rio as modistas francesas, as chapeleiras. Há uma alteração até na aparência social da cidade. A transformação é enorme.

Em 1808, o que muda para o Império português?

COSTA E SILVA: Acentua algo que já existia no século XVIII: Luanda e Benguela já dependiam mais do Rio que de Lisboa. Pode-se até dizer que Angola era uma subcolônia do Brasil — antes da vinda da família real, o Rio tinha mais influência sobre Luanda que sobre Recife.

As ilhas do Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe também eram muito vinculadas ao Brasil. Mas, em 1808, não havia o Império que vai começar a se formar a partir dos anos de 1870. No fim do século XIX, ocorre um grande avanço imperial no mundo relacionado ao fim da escravidão. Antes, por exemplo, a colônia de Angola era só um enclave ao redor de Luanda, cercada por reinos africanos. Portugal não tinha o controle e o domínio de territórios africanos e asiáticos como teria depois — só Cabo Verde e São Tomé e Príncipe já estavam sob seu total controle. Na verdade, o Império português em 1808 era o Brasil.

Embarque_da_família_real 

Embarque da família real em Lisboa

Como o senhor finalmente imagina o embarque?

COSTA E SILVA: A hipótese da partida se pôs muito cedo em discussão na Corte. A partida já estava programada, mas aconteceu às pressas, e houve o tumulto que os relatos nos deixam conhecer. Tratava-se, também, de impedir que os navios portugueses caíssem na mão de Napoleão.

Para quem ficou, foi um período de sofrimento, com muitos saques, lutas de guerrilhas, algo intenso e feroz. Mas, se D. João tivesse ficado, teria sido a mesma coisa, ou até pior. Isso porque, após a derrota de Napoleão, talvez Portugal não tivesse mantido sua integridade física e tivesse perdido suas colônias para a Inglaterra — entre elas o Brasil, que poderia ter tido uma independência esfacelada. Os historiadores portugueses, por ter sido um período trágico, nos legaram, em represália, uma visão caricata de D. João e sua família. Destacam-se aí os dois Oliveiras: o Lima, o brasileiro que defende D. João, e o Oliveira Martins, português, que o ataca.

A imagem de D. João em Portugal estava ligada à invasão, à guerra e ao esfacelamento do Império. Mas D. João fez algo único ao levar a sede do Império para a colônia. Deu certo, a tal ponto que Napoleão escreveria, no fim da vida, que fora enganado por D. João — D. João tinha passado a perna nele.

 

Por Rachel Bertol para o Globo

Para saber mais

Sugestões bibliográficas

AGUIAR, Pinto de. Abertura dos Portos. Cairu e os Ingleses. Livraria Progresso Editora, 1960.

ALEXANDRE, Valentim. “O processo de independência do Brasil”. In.: BETHENCOURT, Francisco e CHAUDHURI, Kirti (dir.). História da Expansão portuguesa vol. 4: Do Brasil para a África (1808-1930). Espanha: Círculo de Leitores, 1998.

Anais do Seminário Internacional Dom João VI: Um rei aclamado na América. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2000.

DIAS, Maria Odila da S. A interiorização da metrópole e outros estudos. São Paulo: Alameda, 2005.

LIMA, Oliveira. D. João VI no Brasil.  3ª ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996.

MATTOS, Ilmar R. de. O tempo Saquarema. Rio de Janeiro: Access, 1994.

NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808). São Paulo: HUCITEC, 1985.

PRADO JR., Caio. ­­Formação do Brasil contemporâneo. 18ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1983.

 

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