De Hiroshima a São Paulo, a saga de sobreviventes japoneses
Fonte: http://jpimg.digital.archives.go.jp/kouseisai/category/poster/ippanbouku_e.html
Um clarão encheu o céu. Foi como se o sol desabasse sobre a cidade japonesa de Hiroshima. Em poucos segundos, cerca de 350 mil pessoas foram atingidas pelo calor de até um milhão de graus Celsius. Minutos depois, veio a chuva de pingos negros e radioativos.
Era a manhã de 6 de agosto de 1945 e os EUA haviam lançado do avião Enola Gay uma bomba atômica de poder equivalente a 12.000 toneladas de explosivos. Quem sobreviveu, além da memória daquele dia, lida com as cicatrizes das queimaduras e os resquícios da radioatividade que reproduz o carma atômico em seus filhos.
O historiador Peter Kuznick, da American University, em Washington, diz que os sobreviventes se dividem em dois extremos: em um deles, escondem as histórias por temer o preconceito na hora de conseguir emprego, casar, ter filhos. No outro, relatam o que foi visto, sublinhando a expressão japonesa: “É preciso contar a grande verdade, que nunca pode ser esquecida”.
Segundo a Associação de Sobreviventes da Bomba Atômica no Brasil, 128 imigrantes japoneses que escaparam dos ataques moram em São Paulo. Nesta reportagem, o testemunho de alguns deles, de seus filhos e de seus netos, que convivem com o legado.
Veja este vídeo, com imagens fortes e uma bela trilha sonora
Quando a bomba explodiu…
Takashi Morita, 21 anos, oficial do exército japonês:
Takashi Morita, 21 anos, oficial do exército japonês durante a II Guerra Mundial e um dos sobreviventes da bomba de Hiroshima que vieram para São Paulo
Por volta das 8h15 da manhã de 6 de agosto de 1945, Takashi Morita andava pelas ruas de Hiroshima fazendo força para não mancar. Na semana anterior, ele havia estado em Tóquio, no bombardeio norte-americano que matou cerca de 100.000 pessoas. De volta à cidade natal, o oficial estava um pouco mais calmo. Pelos seus cálculos, os inimigos não atacariam a pacata Hiroshima.
A bomba explodiu a 580 metros do chão, perto de uma ponte em formato de T. Morita estava a 1,2 quilômetros dali e quase não se machucou – a maior parte das pessoas que estava na mesma área morreu ou ficou gravemente ferida. Fazia muito calor e os civis usavam regatas e shorts, que deixavam o corpo exposto a queimaduras. O oficial estava relativamente protegido pelo uniforme militar, o boné e as botinas – e o fato de estar de costas para a explosão evitou que ficasse cego. O que viu, então, foi uma confusão de cenas. “Gritos, desespero, corpos se queimando, o fim do mundo”, resume.
No fim da tarde, Morita estava de volta ao epicentro da explosão. Sua prioridade era cuidar das crianças e dos idosos. Nos escombros de um colégio, centenas de crianças mortas. Na rua, os sobreviventes olhavam para seu uniforme e suplicavam: “Vingue!”. E foi assim durante três dias, até que um ferimento em sua orelha aumentou e ele precisou ser internado.
Takashi Morita veio para São Paulo em 1956, onde virou comerciante.
Yasuko Nishimura, 14 anos, estudante:
A 4 quilômetros de onde a bomba explodiu, Yasuko Nishimura brincava com as amigas no pátio do colégio. Viu todos os vidros da escola se quebrarem por causa do vento muito forte. O prédio tremeu.
Diretora, professores, alunos, todos eram iguais naquele momento: corriam para o lado oposto à grande fumaça em formato de cogumelo. Yasuko percorreu 10 quilômetros a pé para chegar na casa dos pais (ela morava com a tia, perto da escola). Nos braços da mãe, coberta de cinzas, avisou: “Um cometa quase me pegou”.
Em 1955, Yasuko Nishimura mudou-se para o Brasil. Fez o mesmo trajeto de navio que sua avó, Yoka, havia feito em 1908.
Vida nova em São Paulo
Os sobreviventes das bombas que atingiram Hiroshima e Nagasaki, e que vieram tentar a vida em São Paulo, recebem do governo japonês ajuda de custo equivalente a um salário mínimo. A assistência médica fica por conta deles
Takashi Morita desembarcou no porto de Santos, em 1956. A viagem de 42 dias foi paga com o dinheiro da venda de sua casa no Japão.
Quando chegou em São Paulo, o primeiro desafio foi encontrar o bairro da Bela Vista. Diante da expressão do moço para quem pediu uma informação na rua, encarou a realidade: os brasileiros não falam japonês. Mostrando um papel com o endereço, conseguiu encontrar a casa de um judeu que havia conhecido no Japão. Por carta, o amigo ofereceu a Morita um emprego em sua relojoaria.
Na loja, Morita aprendeu a se comunicar em português. Trocou de trabalho quando surgiu vaga em uma fábrica de relógios na Mooca. Dois dias depois, por orgulho, desistiu. “Fui do exército japonês, era humilhante demais ser um simples funcionário.” Decidiu, então, abrir um mercadinho de produtos japoneses na avenida Jabaquara, na Saúde. Há 22 anos, está no mesmo endereço onde funciona também um restaurante de cozinha oriental.
Seu mercadinho abriga ainda a sede da Associação dos Sobreviventes da Bomba Atômica no Brasil, entidade que luta há anos para convencer o governo japonês a aumentar a ajuda aos sobreviventes dos ataques sobre Hiroshima e Nagasaki que não moram mais no Japão. Hoje, eles recebem por mês um pouco mais de um salário mínimo (R$ 380, 00), e não têm auxílio médico.
Enquanto Morita conversa com a reportagem, uma senhora japonesa de 77 anos se aproxima. Ela não quer se identificar. Arregaça as mangas e mostra uma cicatriz. Veio para o Brasil cinco anos depois do ataque, para trabalhar na loja de presentes de uma sobrinha, na Mooca. Logo depois, concorreu a uma vaga em uma confecção. Disse que era sobrevivente e acredita que, por isso, o emprego lhe foi negado.
Seus dois filhos, que gozam de boa saúde, até hoje não sabem que a mãe foi exposta à bomba nuclear. “É uma coisa que eu e meu marido guardamos para nós. Não quero que ninguém pense que somos monstros”, explica. Morita completa: “Monstros são os americanos e o exército japonês, que não teve honra suficiente para assumir que havia perdido a guerra”.
Takashi Morita volta todo ano para Hiroshima. Na foto, ele, com 83 anos, e sua mulher, Ayako, na praça que presta homenagem às vítimas da bomba
Os descendentes de Hiroshima
Filhos e netos dos sobreviventes tentam preservar a história
Nos meses que se seguiram após a bomba, o governo norte-americano confiscou documentos e fotos que detalhavam a devastação de Hiroshima. A reação das pessoas que testemunharam o ataque foi desenhar o que viram. Algumas dessas obras estão nesta galeria de imagens.
Os filhos e netos dos sobreviventes, das chamadas Segunda e Terceira Geração da Rosa, ajudam a preservar a história. O pai de Akemi Genk escapou da morte no Japão. Agora a filha lidera a frente brasileira de um movimento que, desde 1973, coleta assinaturas contra a produção de armas nucleares. O documento é entregue, anualmente, na sede das Nações Unidas, em Nova York. Em 2007, Akemi bateu o recorde ao conseguir 10.000 nomes. Mas o cenário não é animador: o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, de 1970, tem sido ignorado. Países como Irã e Paquistão investem em tecnologia nuclear. Os Estados Unidos e a Rússia ainda possuem cerca de 4.000 bombas nucleares.
Yasuko Saito, filha do oficial do exército japonês Takashi Morita, investe nas novas gerações. Em 2006, ela promoveu um concurso de redações para jovens, com apoio do governo japonês. O tema: a paz entre os países. Houve empate. Priscilla Yumiko, de 15 anos, e Marcelo Cremar, de 16, foram juntos com senhor Morita para Hiroshima. Em discurso para autoridades japonesas, ele disse: “Nós estamos no Brasil, mas a lembrança da bomba ainda está em nós. O clarão, os gritos, o cheiro indescritível de carne humana se queimando. Isso tudo não pode morrer conosco”.
Fonte: por Bruno Moreschi para Veja São Paulo




