Um roubo que nunca aconteceu
Os ingleses levaram a borracha para a Ásia, mas o Brasil lucrou mais do que perdeu no saldo final do que chamam de biopirataria
A saga da borracha, costuma ser contada como a de uma dádiva natural interrompida por um furto. A descoberta do látex fez com que milhares de nordestinos navegassem pelos rios Purus e Juruá em direção ao Acre, inspirou revoluções burlescas e permitiu que alguns desbravadores se transformassem em “coronéis de barranco”, com direito aos seus latifúndios à beira-rio e ao desfrute de cortesãs francesas nos cabarés de Manaus.
Tudo caminhou bem até o dia em que um grupo de ingleses decidiu transportar na mala sementes da Hevea brasiliensis para o Royal Britanic Gardens, que lá foram testadas e depois levadas para as colônias do Ceilão e da Indonésia. Tempos depois, o ciclo extrativista da borracha chegaria ao fim no Brasil, dando lugar aos modernos seringais de cultivo na Ásia. Em 1910, quando a decadência já era clara, o comerciante Raphael Benoliel, que presidia uma associação local de empresários, definiu essa louca aventura na selva como a história do “monopólio que Deus nos deu e o homem nos tirou”. Era o primeiro caso, na Amazônia, do que se convencionou chamar de biopirataria.
Responsável pelo “roubo”, o inglês Henry Wickham recolheu 70 mil sementes de seringueiras em 1876, num tempo em que a pesquisa genética engatinhava. Foram necessários 30 anos de testes para que os seringais anglo-asiáticos prosperassem. Pode-se condenar a atitude de Wickham, mas o fato é que ele foi um dos primeiros heróis da globalização. Sua expedição libertou a humanidade de uma estrutura produtiva arcaica, que deu lugar a outra muito mais eficiente. Além disso, enquanto o Brasil monopolizou o comércio do látex, foram os ingleses que eletrificaram cidades como Belém e Manaus e também criaram as principais companhias de navegação da época, com investimentos da ordem de US$ 3 bilhões – a preços de hoje. O erro brasileiro, no caso da borracha, foi a incapacidade de se adaptar à nova realidade, que viria mais cedo ou mais tarde. E foi só depois de bilhões de subsídios serem perdidos na selva que a seringueira pôde descer do Acre e do Amazonas para os seringais de cultivo de São Paulo, da Bahia e do Mato Grosso – e graças a isso o Brasil voltou a ser um dos grandes produtores globais.
Outro ponto importante é que, no balanço final do que chamam de “biopirataria”, o Brasil tem sido um dos beneficiários. O café, que sustentou a economia nacional durante décadas, é originário da Etiópia – e neste exato momento o governo etíope acusa pesquisadores brasileiros de terem contrabandeado sementes de café descafeinado. A cana-de-açúcar, carro-chefe da moderna “agroenergia” brasileira, é uma planta nativa do Sudeste Asiático. A soja veio da China. Além disso, o País tem hoje o maior rebanho bovino do mundo apenas porque, no início do século passado, diversos heróis anônimos foram à Índia importar espécimes do gado zebuíno – muitas vezes, fora dos registros oficiais.
Por um capricho qualquer, ao criar o mundo, Deus não colocou as plantas e os animais nos solos onde melhor crescem e se desenvolvem. É só o intercâmbio de sementes e de culturas que tem permitido ao homem encontrar as verdadeiras vantagens comparativas. Isso significa que se deve fechar os olhos para a pirataria biológica? É evidente que não. Ações de espertalhões, como os japoneses que registraram a marca amazônica “cupuaçu”, devem ser combatidas. Mas é um tanto anacrônica a idéia de impedir que outras nações pesquisem propriedades de plantas amazônicas e patenteiem suas descobertas. O único caminho disponível para o Brasil, que hoje tem o seu Centro de Biotecnologia da Amazônia, é produzir e multiplicar conhecimento. Exatamente como os ingleses fizeram cem anos atrás.
Fonte: Leonardo Attuch para Isto É Dinheiro



