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Archive for the ‘Cultura’

Nunca é tarde para o sonho

17/04/2008 Publicado por: Xico Lopes Categorias: Brasil, Causas Humanitárias, Comportamento, Comunidade Lusófona, Cultura, Direitos Humanos & Cidadania, Educação & Ensino, Estilo de Vida, Perfil, Personalidades & Personagens, Responsabilidade Social, Sites, Blogs & Blogosfera, Sociedade, Sustentabilidade & Desenvolvimento 8 Comments →

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Visão_GlobalA blogagem coletiva marcada para amanhã 18/04 tem o propósito de focar as atenções sobre a questão do "Analfabetismo", e que dessas atenções possam enfim, surgir práticas viáveis que ajudem a minorar, a remediar um tão grave problema, que é ao mesmo tempo, individual e coletivo. Esta iniciativa foi proposta pela Geórgia do blog Saia Justa e vibrantemente divulgada pela Meiroca do Pensieri e Parole.

O Visão Global traz a público, não as propostas solicitadas pelas meninas, mas um exemplo, um exemplo da importância da Educação na construção do ser humano, um exemplo da Educação na construção de uma Sociedade, mas acima de tudo, o mais importante, um exemplo do que pode o ser humano. Existe o ditado que prega que uma imagem vale mais que mil palavras, quanto será que vale um exemplo?

Minha história, por Gislene Gonçales

Minha paixão pela Educação começou no nome. Explico. Meus pais eram analfabetos e eu nunca soube como era meu nome completo. Eles sempre me chamavam por apelido. Fui conhecer meu nome verdadeiro na sala de aula de uma escolinha na Fazenda Bom Princípio, onde nasci, em Mirassol, no interior de São Paulo.

Eu cresci na roça. Ainda bebê, meus pais estendiam um pano embaixo dos cafezais onde me vigiavam enquanto trabalham na plantação do patrão. Aos cinco anos, comecei a ajudar trabalhando na limpeza dos cafezais com enxada. Minha infância foi dividida entre os afazeres da casa e a lida diária no campo. Ia à escola no tempo que sobrava. Adorava a sala de aula e ficava triste toda vez que não tirava um 10. Era uma vida de trabalho e sem fartura, mas livre.

Tudo mudou quando eu estava para concluir a quarta série. Minha irmã mais velha se suicidou. Meus pais ficaram muito abalados e adoeceram. Acabaram se mudando da fazenda para a cidade, levando a família. Meus outros irmãos mais velhos se casaram e as contas e a responsabilidade da casa passaram para mim, que tinha 10 anos, e meu irmão Paulinho, de 12.

Tive que parar de fazer o que eu mais gostava: ir à escola. Comecei a trabalhar em período integral como babá e fazendo faxinas. Persisti, porque sempre tive fé que, às vezes, temos que percorrer um caminho na vida até conseguirmos as coisas boas que queremos. Mantive a casa ao lado do meu irmão, que trabalhava consertando bicicletas e numa fábrica de móveis. Com 15 anos me casei com um metalúrgico de 24. Aos 16 tive o primeiro filho, o Willian e aos 18 uma menina, a Evelin. Quando fiz 19, meu pai morreu e resolvi me mudar para Campinas. Era a primeira vez que saia de Mirassol e foi assustador chegar numa cidade grande sem emprego e sem amigos e com dois filhos pequenos para criar, mesmo que tivesse apoio do meu marido.

Comprei em uma banca de revistas um modelo de currículo e preenchi sozinha, mesmo tendo pouca prática na escrita e vocabulário ruim. Distribui em hospitais, casas de família, lojas, universidades. Procurava uma vaga de copeira, faxineira, algo sim. Sabia que, naquele momento, não podia querer muito. Passamos aperto, até que conseguisse um emprego. Morávamos num cortiço com banheiro coletivo e pagávamos o aluguel com dificuldade. Finalmente, dois meses depois, consegui uma vaga de diarista na casa de dois professores universitários. Era a Educação cruzando meu caminho.

Eles me receberam mesmo sem ter nenhuma referência, porque contei minha história e eles perceberam minha vontade de crescer. Com o tempo nos tornamos amigos e eles sempre me incentivavam a procurar um emprego melhor, estudar, porque sentiam que eu tinha capacidade.

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Gislene (primeira da esquerda para a direita) e as colegas de trabalho, aos 19 anos, quando era auxiliar de serviços gerais na Unicamp (Arquivo pessoal)

Ficaram muito felizes quando consegui uma vaga como faxineira na Unicamp, para ganhar mais do que eles podiam me pagar. E disseram que eu poderia voltar a qualquer momento. Imagina, o emprego era justamente na Faculdade de Educação! Lembro do primeiro dia em que pisei na universidade. Me encantava ver todos aqueles alunos e professores discutindo, lendo. Passou a ser um hábito ficar na soleira das portas das salas para ouvir algum pedaço de aula. Adorava também sentir o cheiro dos livros quando ia limpar tudo. Minha rotina era puxada. Limpava os banheiros, pátios, salas de aula. Cuidava, ainda, da manutenção dos jardins.

Queria mudar - Tinha feito até a quarta série na roça, então conseguia ler e escrever mesmo com um pouco de dificuldade e  meu vocabulário era muito limitado. Tinha também muitos vícios da fala do campo. Por exemplo, ainda falava “bassoura” em vez de “vassoura” e “cuié” em vez de “colher”.

Nunca tive problema em fazer amigos e acabei conhecendo muita gente na universidade. Tive amizades com professores, alunos, outros funcionários. Quando conversava, sentia que não conseguia discutir com aquelas pessoas no mesmo nível. Faltava vocabulário, leitura, capacidade para me expressar mesmo, sabe? Tinha parado a escola muito cedo. Resolvi que ia mudar isso.

Por vontade própria, me matriculei no programa de Ensino de Jovens e Adultos (EJA) da Unicamp. Nessa altura já tinha 23 anos, os filhos estavam mais grandinhos. O maior tinha 8 anos e a menor 6. Voltei, então, para a sala de aula.

Nossa, foi muito emocionante! Pensar que a última vez que eu tinha assistido uma aula e sentado numa carteira de escola tinha sido aos 10 anos! Completei o Ensino Fundamental e o Ensino Médio em seis anos. Foi um dos períodos mais felizes da minha vida. Adorava ver minhas redações destacadas no mural da sala. Fui muito acolhida pelos professores e isso é fundamental no EJA. Imagina, você sai menina e volta mulher! É preciso muito carinho, atenção. Voltei a ser criança, crescendo com meus erros e acertos, sendo corrigida. Acho que não importa a idade, todo mundo precisa disso.

No meio do caminho, me separei do meu marido e fiquei com a guarda dos filhos. Ele nunca pagou pensão e tive que segurar as pontas sozinha. Assim que me formei, fiz um concurso para técnico administrativo da Unicamp e fui aprovada em primeiro lugar. De lá, consegui uma promoção em 2003 e hoje sou uma das chefes na Secretaria de Pós-Graduação da universidade, que é uma das maiores do país.

Comando uma equipe de 6 técnicos e estagiários. Cuido da matrícula, de relatórios oficiais e distribuo as tarefas, faço tudo no computador. Me formei em nível superior em Recursos Humanos e fiz um curso técnico em Informática, com bolsa paga como mérito pelo meu desempenho no trabalho. Trabalho no mesmo prédio onde fui faxineira.

Nunca descuidei da Educação dos meus filhos, apesar de todas as dificuldades. Eles estudaram em escola pública, mas nunca repetiram nenhum ano. Meu filho está com 19 anos e está fazendo faculdade de Logística, para trabalhar na administração de fábricas. Minha menina está com 17 anos e terminando o Ensino Médio. Ela está decidindo entre Biologia e Pedagogia. Faço questão sempre de chamá-los pelo nome, nunca por apelidos como meus pais me chamavam.

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Gislene, hoje, na Secretaria de Pós-Graduação da Unicamp (Arquivo pessoal)

Minha mãe morreu há quatro anos e um dos maiores orgulhos dela era contar para as amigas que a filha tinha se formado e trabalhava na universidade. Isso era uma grande conquista para ela que era analfabeta.

Minha próxima meta é fazer um mestrado em Pedagogia. Quero trabalhar com Educação de Jovens e Adultos.

As pessoas dizem que fui muito corajosa e sou especial. Não acho. Todo mundo tem capacidade e, se falta oportunidade, basta querer. Nunca é tarde para correr atrás.

Fonte: Gustavo Heidrich para a Revista Nova Escola

Visão_GlobalEis aí, a história de Gislene, a história de uma mulher, de uma mãe, a história de uma cidadã, a história de um ser humano, e assim, temos neste Brasil, milhões de Gislenes, Marias, Josés, Antônios, que não perdem do horizonte o sonho, sabem das dificuldades, do árduo caminho que têm pela frente, mas seguem.

Amigos, se vocês gostaram desta história, e conhecem alguém como a Gislene, ajudem esta pessoa a seguir o seu sonho, sejam agentes da transformação, pois quando esta pessoa chegar lá, ao ter percorrido o caminho, ela ajudou a fazer deste Brasil, um país melhor, da Terra, um mundo melhor!

Para se informar mais:

Programa Brasil Alfabetizado

Programa de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA)

ProJovem

Atualização:

Participam desta blogagem os companheiros a seguir relacionados, pelo que o Visão Global recomenda enfaticamente aos leitores, passearem por estes blogs, onde certamente encontrarão belas histórias, boas propostas e muita boa vontade para mudar este país para melhor:

Abigobaldo, Abiose, Adão Braga, Adelino, ADesenhar, Adri, Alealb, Alê, Aline D, Allan, Alice, Amigos da Blogosfera, Ana C, Ana C. Zumpano, Ana Laura D, Andrea Motta, Aninha Pontes, Anny, Antonia Y, Aru’,

Bárbara Matias, Bárbara M.P, Bel, Bel 2, Bete, Bia, BionRJ, Blogosfera Solidaria, Blue R, Bruna P.,

C. Antonio, Canha, Carla B, Carla T, Carolina, Carol R, Ce Junior, Celia, Celia Malmqvist, Célia Rodrigues, Celia Santos, Chicoelho, Cidao, Cilene Bonfim, Claudia Campos, Claudia Clarke, Claudia Pit, Clausia, Crispassinato, Christiani R, Cochise Cesar, Cristiane A., Cybele M., Cris Penaforte, Cris Santos, Crys,

Danda, Daiana, Daniela, Debora, Denise BC., D. Afonso XX, o Chato, Doni, Drops Azul Aniss, Du,

Edilene Mora, Eduardo, Eduardo W., Efeneto, Ela, Elaine, Ernani M, Elena, Elisabete C, Elisangela, Elvira Villani,

Fabio A, Fabio Mayer, Fátima F, Fátima R, Fernanda, Fernanda J., Fernando Cals, Fernando Z., Flainando na Web, Flavia M, Flavio V., Frodo,

Georgia, Gi, Gilson, GuGa, Guillian,

Hairon A, Hebert D., Henry Felippe ,

Ingrid, Iza,

Jandira S, Jan T., Jessica M, Joao Bosco, Joao Maria, Julio M., Jussara,

Kall, Karine Leao, Krika,

Laura, Leniß, Leo, Leonardo, Leonor Cordeiro, Leticia Coelho, Lili Bettina, Lili Faz sua parte, Lilian Britto, Lino Resende, Lis, Liz, Loba, Lola, Lou, Lu, Lucas, Lu Cavichioli, Luci100, Luci Lacey, Lucia Freitas, Lucia, Luiz R, Luiz Ramos, Lulu, Luma, Lunna F., Lunna, Lusinha, Luiz, Luiza Helena, Luiz Valério, LysFigueiredo,

Manu, Marcelo, Marcelo M, Marcia F, Marcos, Marcos Santos, Marcos V. Maria Augusta , Maria Fernanda, Marilac, Mario, Marlene Mora, Marta Ribeiro, Mayna Nabuco, Meire, Mi, Michel Q., Milla,Miriam Salles, Motivacao,

Nadia, Nadja, Naldy, Nanci Natalia, Nando D, Nina,

Oscar, Ozeca,

Pablo Ramos, Paloma, Patti, Paulo, Paola Madrid Sartoretto, Paulinha, P-Paulinha, Pedro Freire, Pri, Prof° Cristiana P, Prof° Josenilton,

R., Radio Santa Cruz, Rap, Renata, René, Ricardo, Ricardo Rayol, Ricardo Soares, Rober P, Roberta, Roberto B, Rogério B, Ronald, Rosa, Rosacea, Rosana, Rosane , Roseli V, R Petterson,

Sandrinha, Scliar, Saramar, Semíramis A, Sérgio C, Sergio Issamu, Sergio F, Sergio Nascimento, Simone L., Sonia H., Sonia Regly, Suellen N, Suelly Marquez,

Taliesin, Tamara, Tanya, Tata, Tina, Veneza A. Babicsak,

Veridiana, V. Carlos, Vi Leardi, Vinícius, Vitória, Vivi, Vivi Amorim, Viviane B, Vó Heda,

William,

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