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Archive for the ‘Direitos Humanos & Cidadania’

Mutilação genital feminina: a luta de uma ONG contra esta violência

06/12/2007 Publicado por: Xico Lopes Categorias: Comportamento, Direitos Humanos & Cidadania, Medicina & Veterinária, Mitos, Organizações não Governamentais, Práticas, Usos & Costumes, Sociedade, Tendências, África 1 Comment →

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O pesadelo da circuncisão feminina, que há décadas vitima milhões de mulheres na Ásia e na África, continua presente, apesar de todos os esforços para acabar com essa barbárie. A cada dia, seis mil mulheres são mutiladas em todo o mundo.

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O pesadelo da circuncisão feminina, que há décadas vitima milhões de mulheres na Ásia e na África, continua presente, apesar de todos os esforços para acabar com essa barbárie. A cada dia, seis mil mulheres são mutiladas em todo o mundo.

A convite de uma ONG que luta contra a mutilação genital feminina, levando informação a tribos remotas da África, o fotojornalista Érico Hiller foi ao Quênia e ficou cara a cara com as excisadoras, com meninas que tiveram seus corpos cruelmente cortados e com homens que também aderiram à causa em prol da integridade feminina -de corpo e alma.

É uma abafada manhã de sábado na comunidade de Rombo, no Quênia, um dos mais belos países da África. Animadas em seus trajes e adornos multicoloridos -fascinantes para os olhos de um fotógrafo-, um grupo de 15 mulheres massai cumprimenta os estranhos, sorri e vai se acomodando nos bancos da igreja improvisada no meio da savana.

Olhos curiosos vasculham cada recanto. De repente, a voz firme de Annie Corsini, 53 anos, interrompe o zunzunzum de vozes. Ela apanha um modelo anatômico de vagina, feito com fibra de vidro, e o põe em cima da mesa. As moças se encolhem, levam as mãos à boca, fecham os olhos. Estão com vergonha do único homem presente: eu.

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Annie Corsini mostra o modelo de vagina: as palestras da ONG deixam as mulheres desconfiadas

Saio da sala e peço para que a tradutora diga que eu venho de longe e estou ali para aprender junto com elas. Com um globo inflável em mãos, Annie explica que eu sou do Brasil e ela, da Suíça, o país-sede da ONG Maasai Aid Association (MAA), fundada há quatro anos com o objetivo de erradicar a mutilação entre as mulheres massai. Eu volto de mansinho. Agora, ninguém se mexe nas cadeiras. Girando o globinho, Annie diz que em todos os lugares as mulheres são iguais, têm o corpo igual, mas apenas em uma pequena parte do mundo elas têm o clitóris mutilado.

Mulheres crêem que só terão filhos homens se forem mutiladas

A conversa esquenta, os ânimos se alteram -e as vítimas começam a defender seus próprios algozes. Irritada, uma delas saca da manga o que pensa ser o seu mais forte argumento: não-mutiladas nunca poderiam conceber filhos homens, só mulheres. A minha presença cai como uma luva para a contra-argumentação de Annie: ‘A mãe do Érico não foi mutilada e aqui está ele’. A palestra volta ao seu curso. Percebo que uma das moças presentes é excisadora, a mulher que é paga para ‘cortar’ meninas. Além do pretexto de que mulheres circuncidadas não dão à luz homens, essas senhoras têm uma lista interminável de motivos, sempre fragéis, claro, para justificar seu nada nobre ofício. Em meio à palestra, as excisadoras bradam na língua massai. ‘O clitóris cheira mal!’

‘Fazemos isso porque somos massai!’ ‘O clitóris deve ser cortado porque é uma miniatura do órgão genital masculino!’ ‘O corte deixa as mulheres mais fortes!’ Até que uma das moças interrompe a gritaria em tom de indignação: ‘Calem a boca e deixem eles falarem!’. Essa frase entra no meus ouvidos como música. Fico inundado de esperança: esse trabalho pode, afinal, surtir efeito.

A prática da mutilação confere às excisadoras certo prestígio social em suas comunidades, e as eleva quase ao status desfrutado por parteiras e médicos.

É chocante para essas mulheres ouvir que o seu trabalho perpetua uma barbárie contra a mulher. Por isso, reações como raiva e frustração, além de muitos risos nervosos, são sempre esperadas pela equipe da MAA.

As excisadoras não estão sozinhas. Elas contam com o respaldo dos líderes das tribos, que têm muito medo de não conseguir casar suas filhas se elas não forem mutiladas. Os homens se recusam a se relacionar com moças não-cortadas por vários motivos, mas o mais forte é o de que elas ficariam mais ‘fogosas’, predispostas a traí-los e a fugir com outros homens.

Culturalmente, seria um erro julgar as excisadoras como torturadoras ou pessoas más. Exercendo o seu ofício através das gerações, elas sequer se dão conta de que estão destruindo uma parte do corpo da mulher.

Preferem usar um termo que soa mais leve: ‘circuncisão feminina’, o que na cabeça delas seria o equivalente à circuncisão masculina, também praticada nas tribos e aprovada no mundo ocidental.

Existem relatos históricos da prática de mutilação há três mil anos. Os mais antigos afirmam que o fenômeno ganhou força durante grandes impérios e dinastias, o que faz supor aos estudiosos que a prática teria sido instituída por tiranos. A mutilação conhecida como ‘infibulação’, onde clitóris, pequenos e grandes lábios são cortados, ficou conhecida como excisão faraônica, porque era praticada no Egito Antigo.

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Irene Timanoi é uma fervorosa militante da não-mutilação feminina

Corte rápido

No dia em que cheguei à comunidade de Rombo, exausto depois de uma viagem de oito horas que parecia ter durado dois dias, uma simpática africana me ofereceu coca-cola sem gelo. Era a professora Irene Timanoi Shapashina, 38 anos, nossa tradutora e uma das mais fascinantes mulheres que conheci em toda a minha vida, casada com Joseph Nkanoni, 31 anos, ambos fervorosos militantes da não-mutilação feminina. Detalhe: Joseph é enteado de uma excisadora.

Durante minha estadia, Annie pediu para se encontrar com ela na casa deles. A mulher era Lasohi Eunice Lempira, 62 anos, sete filhos e centenas de garotas mutiladas no currículo. Ela chegou sorrindo e falando inglês fluente. Mas se calou quando Annie começou a falar com a vagina de plástico na mão. Diante dos argumentos irrefutáveis de Annie, ela cruzava os braços, ria nervosamente e dizia que não cortava uma garota há anos -sendo que nós sabíamos que a última tinha sido uma semana atrás. Depois, Lasohi justificou a prática afirmando que fazia apenas ‘um pequeno corte, uma coisa mínima, apenas tiro um pequeno órgão e arranco os pequenos lábios, não chega nem a sangrar muito, é tudo muito rápido com a gilete’. Por fim, Lasohi chorou e falou que ela mesma tinha sido vítima, forçada a se casar bem novinha com um homem que não conhecia.

Satisfeito com a reação dela, cheguei até a acreditar que a excisadora estava se ‘convertendo’, e jamais teria coragem de cortar uma moça a partir dali. Mas a sábia Irene me chamou a atenção: ‘Não se faz uma mulher dessas parar de cortar com uma reunião’. Sem contar que, muitas vezes, o pouco dinheiro que ela recebe garante seu sustento numa comunidade precária, além do respeito da vizinhança.

As excisadoras, na maioria das vezes, não enfrentam resistência das vítimas, de idades que variam entre 7 e 13 anos: elas mesmas não têm a menor idéia de que a castração viola os seus direitos mais íntimos, mais profundos, previstos na Declaração dos Direitos do Homem da Organização das Nações Unidas (ONU).

Antes de serem ‘cortadas’, tudo o que sabem é que vai doer muito, que vai sangrar e que elas vão ter de suportar. Nessas circunstâncias, é natural que algumas meninas sintam desejo de fugir.

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Joyce fugiu da casa do pai para não ser mutilada

A fuga foi o caminho encontrado por Joyce Tito, de 12 anos. Muito tímida, a menina praticamente não tirou os olhos do chão quando foi apresentada a mim por sua atual protetora, a irlandesa Ellaine Bannon, conhecida na região como a ‘mãe das refugiadas’, por ter acolhido pelo menos cinco fugitivas.

A abertura de um abrigo que possa acolher essas pobres meninas está nos planos de Ellaine. Mas, por enquanto, ela não conta com nenhuma infra-estrutura. Por isso, Joyce dormia em um quartinho dos fundos da casa quando a conheci.

Ela fugiu porque seu pai estava determinado a cortá-la. Acuada como um bicho assustado, a menina evita qualquer tipo de contato visual. A única frase que consegui ouvir dela foi ‘obrigada’, num tom quase inaudível, quando lhe dei algum dinheiro para que pudesse trocar seus farrapos por roupas novas.

Joyce era apenas uma criança e já estava apartada dos amigos, estressada e sob o constante risco de ser capturada. Tudo por causa de uma ‘tradição’ que ela nunca entendeu ao certo.

Enquanto eu caminhava pelas vilas, olhava para o rosto das moças e pensava: ‘Será que essa é mutilada? Mas ela ainda sorri, caminha’. Soube depois que a resposta afirmativa à minha pergunta valeria para pelo menos 90% das mulheres com quem deparamos no Quênia -todas caminhando com um órgão a menos no corpo.

No domingo, às oito horas da manhã, a palestra de Annie recomeça em outra vila, Iltilal. Agora, o cenário é uma igreja improvisada a céu aberto. Entra em cena o pastor Tomas Ole Mpattai, da Igreja Pentecostal, contrária à mutilação e, por isso, parceira de Annie.

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Alto, sério, com as orelhas furadas pelos adornos de guerreiros, Tomas parece estranhamente confortável em seu terno. Dessa vez, o público é maior, cerca de 70 pessoas. Mas, assim que vêem o modelo de vagina sobre o altar, as pessoas começam a se retirar. Irritado, o pastor se levanta. ‘Nós sempre pregamos que o corpo é criação de Deus. Que todas as partes do nosso corpo são sagradas. Essa parte do corpo feminino é sagrada também. Não é vergonha nenhuma falar sobre isso.’

As palavras do pastor fazem efeito. Pouco a pouco, as pessoas dão meia-volta e se sentam, caladas. No fim da apresentação, todos oram de mãos dadas e pedem para que eu, o estrangeiro do Brasil, fale alguma coisa.

Eu digo que não sou massai, mas, se o fosse, gostaria de ser como o pastor Tomas. Que a comunidade precisa de mais homens como ele, dispostos a lutar pela saúde e pela vida das suas mulheres.

Motivo de piada

Eles são raros, mas existe um punhado de homens na vila contrários à mutilação. Os professores Joseph Ole Kale, 28 anos, e Joseph Lekirrukule, 33 anos, planejam fundar uma ONG em prol das mulheres.

Desafiando o desejo do seu próprio pai, Joseph Ole Kale gostaria muito que suas irmãs, Yiasi Masarie, de 14 anos, e Semeyian Masarie, de 13, além de sua sobrinha Silantoi Konen, de 14, se tornassem símbolos dessa luta: ‘A nova geração deve dar início a um novo tempo, a uma nova era’, me diz ele, na visita que faço à sua casa. No começo, eu não entendia por que as três tímidas, intactas, se mostravam tão incomodadas e taciturnas.

Aos poucos, percebi que carregam o fardo dos ‘diferentes’, da culpa. Como se não ser mutilada fosse uma ingrata dádiva em relação à quase totalidade de suas amigas já mutiladas: ‘Somos motivo de piada e risadas no colégio e na vila’, diz Silantoi, com as faces ruborizadas e os olhos baixos.

Atravessando uma estradinha pontuada por elefantes e avestruzes, chegamos à igreja de Joseph Lekirrukule, também pentecostal, e pedimos permissão ao pastor para fazer a palestra nos últimos dez minutos do culto.

O lugar é uma modesta construção de madeira, lotada e quente. Muito quente. Basta Annie pôr a vagina de plástico em cima da mesa para começar a debandada. Só as crianças permanecem, estáticas. Querem ver, querem saber, aprender mais sobre sua sexualidade, seus corpos.

Annie não se intimida nem por um minuto e se põe a falar sobre os inúmeros males da mutilação. De repente, uma forte chuva começa a cair. Eu pisco para Annie e digo que deve ser intervenção divina. Algumas retornam à igreja, mas outras decidem ficar na chuva, de braços cruzados e cenho franzido. Mutiladas, ensopadas com a chuva, sem saber ler ou prever o futuro funesto de suas filhas, sem querer entender o que fazíamos ali, um grupo enorme de mulheres nos deu costas e foi embora. Mas não fraquejei, nem perdi as esperanças. Lembrei do que disse certa vez a escritora senegalesa Khady Koita, autora do livro ‘Mutilada’ (já traduzido para o português) e uma das mais respeitadas militantes internacionais contra a mutilação genital feminina: ‘Todas as mulheres têm o direito à informação, de saber o que o corte no clitóris representa para sua vida’.

Pode ser que ainda demore para que esse gesto bárbaro deixe de ser visto como tradição e para que os homens não precisem disso para preservar a honra da família. Mas, saindo de Rombo, tive a certeza de que o caminho da preservação da integridade dessas mulheres passa pelo fim do ciclo da ignorância. E ele pode estar mais perto do que imaginamos.

Em nome da vida

A mutilação genital feminina (MGF) é um problema crônico em países asiáticos e do Norte e Nordeste da África.

Atualmente, ocorrem seis mil mutilações diariamente -ou mais de dois milhões ao ano no mundo, segundo a ONG Massai Aid Association (MAA), uma das várias entidades internacionais empenhadas em extingüir a prática ligadas à Organização das Nações Unidas (ONU).

Ao contrário do que muita gente imagina, a mutilação não está diretamente ligada a nenhuma religião, embora seja mais freqüente entre povos muçulmanos. A prática tem se perpetuado como tradição cultural necessária para preservar a castidade e a honra das mulheres.

Quase sempre é realizada numa espécie de rito de passagem para a adolescência, e muitos governos ainda resistem em classificá-la como violação dos direitos humanos para não provocar a ira de líderes locais. Os tipos de corte variam da forma mais ‘branda’ (só o clitóris é cortado), passando pelo corte dos pequenos ou grandes lábios, até a infibulação, onde pequenos e grandes lábios são extirpados e a vagina é costurada.

Cada comunidade alega suas próprias razões para continuar a prática, mas a mais comum é o controle do prazer da mulher pelos homens. Em algumas tribos, a MGF ocorre em ambientes privados, longe dos olhos da família. Mas em outras, pode acontecer durante uma festa: dançar sentindo dor intensa seria prova de bravura.

Existem situações ainda mais grotescas -não há limite para a crueldade. Neste ano, a discussão sobre a MGF ganhou especial fôlego no Egito, onde está em curso campanha que conseguiu aliar de maneira inédita setores do governo, líderes religiosos e ativistas populares.

Dados da MAA mostram que 97% das egípcias entre 15 e 49 anos são mutiladas. Um recente decreto do Ministério da Saúde do país proibiu o procedimento e o Ministério de Assuntos Religiosos publicou um folheto explicando por que o Islã não exige a prática. Na lista de países com situação mais crítica, além do Quênia, constam Sudão, Mali, Burkina Faso, Etiópia e Chade, entre outros.

Para entrar em contato com a MAA e colaborar com o fim da mutilação feminina, visite o site www.e-solidarity.org. Você também pode entrar em contato pelo tel. 41-22-3483-370, ou pelo e-mail info@e-solidarity.org, ou ainda escrever para 38 Ch. Edouard Olivet, 1.226, Thônex, Genève, Suíça.

Fonte: Érico Hiller para Marie Claire

Xico_Lopes

Ainda sobre esta terrível prática, o Blogvisão/VisãoGlobal publicou: 539/ Retirada do clitóris é proibida definitivamente no Egito após a morte de uma menina

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