Fundador do "novo romance" francês morre aos 85 anos
O escritor e cineasta Alain Robbe-Grillet, “enfant terrible” do establishment literário francês que ajudou a fundar a escola do novo romance, nos anos 1950, morreu nesta segunda-feira aos 85 anos, informou sua editora.
Nascido em agosto de 1922, engenheiro agrônomo, trabalhou no Instituto Nacional de Estatística em Paris (1945-1948), e mais tarde, como engenheiro do Instituto de Frutas Coloniais no Marrocos, na Guiné Francesa, na Martinica e em Guadalupe entre 1949 e 1951. Foi membro do Alto Comitê para a Defesa e Expansão da Língua Francesa (1966-1968). Professor da New York University e da Washington University, dirigiu o Centro de Sociologia da Literatura da Universidade de Bruxelas de 1980 a 1988.
Robbe-Grillet tornou-se figura cult entre intelectuais franceses do pós-guerra, com um gênero de romance que rejeitava convenções como trama, caracterização e emoções, movimento cujos autores (Michel Butor, Samuel Beckett, Claude Simon e Nathalie Sarraute estão entre os mais conhecidos) exigem o máximo da imaginação do leitor, recusando relatos lineares de uma intriga. O gênero lançou um tipo de ficção semifilosófica em que pouco acontece, mas muita coisa é observada, imaginada ou pensada. Após a publicação de “Les Gommes” em 1953, Robbe-Grillet lançou mais de uma dúzia de romances ao longo de 20 anos, incluindo “Le Voyeur”, em 1955, e “La Jalousie” em 1957.
Mas o gênero frio que ele ajudou a fundar, frequentemente destituído de foco narrativo mas obcecado com a descrição de objetos inanimados, não agradou ao grande público e nunca chegou a ser largamente aceito.
No auge de sua fama, em 1961, ele foi convidado a escrever o roteiro do filme “O Ano Passado em Marienbad” - quase um reflexo do “novo romance” em forma cinematográfica, com a interação repetitiva e onírica entre três personagens sem nome.
A partir desse momento, Robbe-Grillet dedicou-se sobretudo ao cinema, não apenas escrevendo roteiros mas também dirigindo vários filmes, incluindo “La Belle Captive”, em 1983. Ele não chegou a ser largamente conhecido na Europa exceto em seu país, mas ganhou alguma fama nos EUA e lecionou em Nova York e St. Louis por muitos anos, até 1990.
Em outubro de 2007 ele chocou o establishment francês ao lançar “Um Romance Sentimental”, que continha descrições de incesto e pedofilia. Fez pouco caso das críticas, dizendo que o livro não era parte de sua obra séria.
Em 2004 Robbe-Grillet foi eleito para a Academia Francesa, que atua como guardiã da língua francesa.
Entretanto, rebelde até o final, ele se negou a submeter-se às condições de ingresso na academia, que incluíam a compra de um traje cerimonial e prestar uma homenagem a seu predecessor. Por essa razão, não chegou a ser formalmente aceito na organização.
Robbe-Grillet morreu no hospital na cidade de Caen, na Normandia, informou uma porta-voz da editora Fayard, sem revelar a causa da morte.
Fonte: Richard Balmforth, para a Reuters via Globo Online e AFP



