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A (in)conveniência de ser negro no Brasil de Luis Inácio

31/10/2007 Publicado por: Xico Lopes Categorias: Brasil, Comportamento, Educação & Ensino, Espanha, História, Justiça, Direito & Legislação, Opinião & Crítica, Sociedade No Comments →

marcoferrari-thumb1 Por Marco Ferrari (premionacionaldeliteratura@ig.com.br)

 

Se bem e certo que como em todo censo demográfico o absoluto não é o que predomina em seus números finais senão o que se aproxima ao suposto, relativo ou conveniente, (pelos mais incontáveis motivos) existe uma oportuna e pacífica unanimidade em considerar que nas veias de 40 % dos brasileiros natos corre alguma fração de sangue negro.

Assim, enquanto nos Estados Unidos 1% de sangue da raça negra em 8 unidades totais faz considerar todo loiro ou ruivo, negro, o que lhes concede um enorme orgulho que estampam nos seus rostos, roupas, penteados, movimentos, músicas, muros e camisetas, (Yes, I am black, Black is beutiful e etc.) no Brasil, sê-lo, alça tantos questionamentos, desencanto e até indignação, a sua referencia que, uma grande fração de afro-ascendentes (nunca descendentes, pois estes seriam os filhos e netos de si) renegam de serem negros se a pigmentação de sua pele é hesitante ou dá perspectiva a ambigüidade.

Todavia, nos casos de ocupação de quotas exclusivamente para negros, a proporção aumenta. Tem branco querendo ser negro e (sempre em caso contrário) negra querendo ser branca segundo a irônica figura premonitória de Martinho da Vila que, quando fez a versão deste excelente samba há trinta anos, quota, era para excluídos de (indis)tintas raças uma palavra de advertência de aumento de juros mensais se atrasada, exclusivamente atrelada ao Carnê da Felicidade e ao Ponto Frio Bonzão.

Outros (adotando um mimetismo sem muita convicção ou a contragosto) referem-se a si próprios como mulatos, mestiços, pardos ou sararás, autodiscriminação racial em que não está só já que o próprio governo o determina em documentos oficiais e o IBGE o destaca nessa persistência de apartheid.

Certamente que este desencontro (in)advertido faz perseverar o racismo e sua constância ao fracionar em quotas a individualidade humana, arrastando nela a igualdade e isonomia igualitária que nasce extraviada ou se perde, ao começo de sua percepção ou na dor da criança que principia a adverte-la.

Ainda (querendo colocar lenha nesse fogo de matizes para aumentar e consolidar a luta em maior conjunto por uma só identidade racial) transcreverei em brevíssimas linhas o resultado circunstancial de uma linha de pesquisa que realizei no Museu de Madri e na Torre do Tombo em Portugal quando, procurando subsídios em documentos originais para meu livro Idioma Galego Nossa Língua Portuguesa conclui que no Brasil a proporção de sangue negro (isto é africano) alcança mais de 90 % dos seus cidadãos natos, o que significaria hoje ao redor de 170.000.000 de pessoas.

A raça brasileira é resultante, em origem, de avançados espanhóis (Capitão da armada Castelhana Vicente Yanez Pinzao e sua tripulação - Pernambuco, Cabo Santo Agostinho, 1493) galegos, (60% dos tripulantes da armada de Pedro Álvares Cabral) e portugueses, estes, todos por sua vez, de incontestável ascendência africana, cujo avós mouros (negros africanos) invadiram a Península Ibérica permanecendo 800 anos nela (714-1492) ate sua reconquista, feita pelos cruzados castelhanos em predomínio quase absoluto (havia digitados mercenários franceses, ingleses, alemães) e, pelo valoroso exército português comandado pelo seu primeiro rei e fundador de Portugal, Afonso Henriques, (galego nascido em Portocale que então era província do reino da Galiza) quem derrotou fragorosamente os africanos na batalha de Ourique apesar da superioridade numérica dos mouros que, segundo constam em documento da época absolutamente fidedignos guardados no Museu de Madri era de sete africanos por cada português.

Durante oito séculos de domínio, estes negros africanos fizeram casamentos inter-raciais com mulheres nativas de toda a Península Ibérica (hoje Espanha e Portugal) criando quarenta gerações consecutivas miscigenadas por sangue africano, das quais, evidentemente, nenhuma família portuguesa nem espanhola arribada ao Brasil pode haver tangenciado nalgum momento ou pulado seu cruzamento, salvo raríssimas exceções dificílimas de serem estabelecidas a partir dos seus onde, quando, como e porquês.

Como visto está, deixo de lado a própria Itália (maior imigração) e aos seus domínios africanos, cujos filhos desse continente deram Césares, cônsules e generais gloriosos a Roma, a vez que também por seus casamentos inter-raciais acrescentaram incontáveis ascendentes negros à maioria das quatrocentonas famílias vindas a Terra da Vera Cruz.

E, naturalmente, como diria Gilberto Freire e Darcy Ribeiro, a escravidão (posteriormente) fez que nenhuma família de renome (principalmente do nordeste e norte de casa e senzala) ficasse ausentada de enriquecimento do sangue negro que durante o percurso de essa barbárie infame foi tão profusa e naturalmente derramado para estabelecê-la como desprezível, infra-humana e menos valiosa que a de um animal domestico.

Para encerrar, para mim, quota é determinada fração, porção, limitação de uma unidade, qualidade do que não é integro e, relacionando-a com raça, é crime de racismo, hediondo, imprescritível.

Às barricadas! Para que quota seja prontamente convertida em ensino médio de melhor qualidade e em programas gratuitos de preparação para os vestibulares comparáveis aos cursos preparatórios pagos.

Ai jamais um afroascendente vitorioso na corrida intelectual que lhe exigiu a vida ouvirá uma cobrança que valer-lhe-á como um desprezo ou um insulto imerecido.

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