Aos 84 anos, morreu o escritor Norman Mailer
Mailer alcançou a glória literária, mas manteve uma vida turbulenta. Em 1960, esfaqueou com um canivete a segunda mulher. Agrediu o escritor Gore Vida num programa de TV. Declarava-se um "conservador de esquerda"
Norman Mailer foi um dos escritores mais brilhantes, apesar dos percalços(Foto: AFP)
O escritor Norman Mailer, expoente do novo jornalismo e um dos maiores nomes da literatura norte-americana após a Segunda Guerra Mundial, morreu neste sábado pela manhã em Nova York, aos 84 anos, de falência renal aguda. No dia 17 de outubro, a família divulgou que ele estava internado no Hospital Monte Sinai após realizar uma cirurgia no pulmão.
Vencedor do Prêmio Pulitzer em duas ocasiões (1968, com o também ganhador do National Book Award, Os Degraus do Pentágono, e 1979, com A Canção do Carrasco), o escritor se casou seis vezes e teve nove filhos.
Em 1960, ele esfaqueou com um canivete a segunda mulher, Adele Morales, com quem estava casado desde 1954. Ela não prestou queixa, porém contou a sua versão do ocorrido na autobiografia The Last Party (A Última Festa). Romancista, ensaísta e repórter, Mailer publicou mais de 40 livros. Falou de celebridades, guerra, política, sexo e da eterna batalha do bem contra o mal. Escreveu um álbum-biografia de Marilyn Monroe e contou a história de Lee Harvey Oswald, tido como assassino do presidente John Kennedy.
"Uma coisa que eu sempre quis ser foi escritor” - comentou. "Eu queria escrever um romance que tanto Dostoiewski quanto Marx; Joyce e Freud; Stendhal, Tolstoi, Proust e Spengler; Faulkner e até o velho e mofado Hemingway quisessem ler”.
Judeu nascido em Long Branch, Nova Jersey, em 31 de janeiro de 1923, o escritor cresceu no Brooklyn, Nova York, que se tornou seu verdadeiro lar. Por duas vezes ele concorreu à Prefeitura da cidade. No entanto, começou a achar difícil manter seu estilo de vida boêmio - era fumante inveterado, mulherengo, bebia pesadamente e sempre arrumava briga - com o passar dos anos. "Nova York acaba comigo. Não consigo mais ficar a noite toda na rua e depois escrever no dia seguinte” - afirmou certa vez. Era obcecado com a masculinidade e com a violência, por conta de alusões a agressões sexuais na sua obra e do episódio com a mulher Adele, era freqüentemente criticado pelas feministas.
Considerado aluno brilhante, formou-se em Engenharia Aeronáutica por Harvard em 1943 e serviu no Exército na Segunda Guerra Mundial, no Pacífico Sul. A experiência foi contada em seu primeiro romance, Os Nus e os Mortos, de 1948. O trabalho foi muito bem recebido pela crítica, apontado como um clássico contemporâneo e chegou ao topo da lista de mais vendidos. Mas Mailer teve dificuldade em manter o padrão, apesar de novo sucesso com Um Sonho Americano, de 1957.
Afundou a própria campanha a prefeito em 1969, chamando seus aliados de "bando de porcos mimados”. Em 1971, deu um soco na cabeça do escritor Gore Vidal no meio de um programa de televisão porque Vidal escreveu que "de Henry Miller, passando por Norman Mailer e chegando a Charles Manson (fundador de uma seita que comandou o assassinato da atriz Sharon Tate em 1969), houve um progresso lógico”.
Vidal declarou depois que Mailer era "um homem cujas falhas, embora muitas, acrescentavam em vez de subtrair, da soma de suas realizações naturais”. Mailer se descrevia politicamente como um "conservador de esquerda”. Detestava o capitalismo e apoiava o movimento negro ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, desafiava o feminismo e demonstrava ter uma queda por assuntos violentos.
Fonte: Jornal O Povo



