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Archive for the ‘Estados Unidos’

Ontem, há 69 anos, "marcianos invadiam a América!"

31/10/2007 Publicado por: Xico Lopes Categorias: Astronomia & Astronáutica, Cinema & Cineastas, Ciências, Comportamento, Comunicações, Curiosidades, Datas & Acontecimentos, Escritores, Estados Unidos, Fábulas, Lendas, Mitologia, Folclore e outras histórias, História, Literatura, Livros, Mitos, Mídia, Rádio, Shows, Eventos & Apresentações, Sociedade No Comments →

Xico_Lopes

Uma primeira abordagem deste episódio pode fazer com que o achemos apenas anedótico, um fato curioso, mas se nos detivervos mais atentamente, ele nos conduzirá a reflexões mais sérias e talvez, sombrias. Estou falando do imenso poder da mídia, e da responsabilidade ética que deve nortear a divulgação de conteúdos ao público (responsabilidade que se extende inclusive a nós, comunidade blogueira). Mas voltemos ao episódio:

A 30 de Outubro de 1938, Orson Welles deixava a América em pânico por causa de uma emissão de rádio baseada num livro de H.G. Wells e onde se contava a invasão marciana do planeta Terra.

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A Guerra dos Mundos, escrito em 1898, é um clássico da literatura de ficção científica (FC). O seu autor – H.G. Wells – já tinha publicado romances notáveis do gênero: A Máquina do Tempo (1895), A Ilha do Dr. Moreau (1895) e O Homem Invisível (1897), mas foi a história de uma invasão de Marcianos que fez dele um pioneiro da FC (Ficção Científica).

A versão original do livro – em inglês – pode ser lida aqui: http://virtualbooks.terra.com.br/livros_online/wells/wells01.htm.

 

H.G. Wells não descobriu a pólvora ao imaginar um planeta Marte habitado. Nos finais do século XIX tinha-se como certo que vivia no planeta vermelho uma civilização muito mais antiga e avançada que a nossa, lutando pela sobrevivência face a um clima instável e hostil e à escassez de água.

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O que um erro de tradução pode fazer

O mito dos canais marcianos teve origem numa má tradução do italiano para o inglês. Tudo começou nas observações do astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli (1835-1910). Observando Marte ao telescópio, ele reparou numa série de linhas finas que uniam áreas escuras na superfície do planeta. Schiaparelli baptizou estas linhas de canali, no sentido de canais naturais como aqueles que unem regiões alagadas. Acontece que a expressão de Schiaparelli foi traduzida para canal que, ao contrário de channel, significa canal artificial. E a maior obra de engenharia da época era precisamente o Canal do Suez.

Não admira que cientistas de renome, como o americano Percival Lowell, se tenham deixado levar pela imaginação, entusiasmando-se com o trabalho dos engenheiros marcianos. Lowell ficou obcecado pelos canais de Marte e nunca abandonou esse fascínio até à sua morte, em 1916. Construiu um observatório com o seu próprio dinheiro e, durante quinze anos, dedicou-se a observar os canais de Schiaparelli e imaginar obras de engenharia que serviam para trazer água dos pólos e irrigar as regiões equatoriais.

Os canais de uma civilização marciana lutando pela sobrevivência foram uma realidade durante anos. Imagine-se, então, o impacto de uma novela em que se conta a invasão da Terra por parte de alienígenas de Marte agressivos e mais avançados que nós. O mais fascinante (pelo menos para mim) na novela de Wells é a forma como acaba. Tomou-me completamente de surpresa, pois nunca me passou pela cabeça que um escritor de FC, em 1898, imaginasse que os marcianos seriam vencidos por contaminação bacteriológica e não por uma qualquer ação militar heróica.

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Orson Welles

Em 1938, com meios de observação mais avançados, já se suspeitava ser improvável existir vida em Marte, quanto mais inteligente. Mas tais avanços no conhecimento não impediram que um então desconhecido Orson Welles, de 23 anos, juntasse a trupe do Mercury Theatre para uma emissão radiofônica baseada no livro de HG Wells e colocasse a América em pânico.

Eram tempos difíceis. O fracasso diplomático da Inglaterra e da França tivera como consequência a entrega da então Tchecoslováquia a Hitler. Nas vésperas da II Grande Guerra Mundial, o temor do expansionismo nazista era tão real para os americanos como os canais marcianos para Lowell. Notícias sobre a situação na Europa interrompiam constantemente a programação da rádio.

A 30 de Outubro, Welles faz a célebre dramatização radiofônica de A Guerra dos Mundos. As consequências dessa emissão criaram episódios de pânico coletivo tão clássicos como o livro em que se baseou: mais de um milhão de pessoas nos EUA foram afetadas. Muitos fugiram de casa, outros suicidaram-se, acreditando que o seu país estava a ser invadido por marcianos.

Embora não estivesse à espera que um milhão de pessoas entrasse em pânico por causa dos seus marcianos, o pequeno gênio de Citizen Kane assumiria, logo em 1955, num especial da BBC que lhe foi dedicado - Orson Welles Sketchbook -, o caráter pouco inocente da dramatização.

O mundo parecia ser alimentado por tudo o que saía daquela máquina, afirmou então Welles. Nesse sentido, a transmissão fora um assalto à credibilidade daquela máquina e um alerta para que as pessoas não se deixassem orientar por opiniões pré-formatadas, viessem elas ou não da rádio. [Download: a histórica emissão radiofónica de Orson Welles]

É fácil culpar a típica ignorância dos americanos pelo sucedido, mas as coisas não foram assim tão simples. A tal ponto que se formou uma comissão liderada pelo psicólogo Hadley Cantril para tentar descobrir porque razão os americanos tinham entrado em pânico. As conclusões foram as seguintes:

REALISMO DA EMISSÃO

De acordo com os psicólogos, foi de um caráter excepcional. Uma exceção à opinião dos pesquisadores foi a de Dorothy Thompson. A jornalista e comentadora política escreveu no New York Herald Tribune que nada daquilo era crível mesmo no caso de o ouvinte ter sintonizado, tardiamente, a emissão.

      IMPORTÂNCIA DA RÁDIO

      Era frequente que as programações das rádios fossem interrompidas para dar a conhecer aos americanos as notícias de uma Europa à beira da II Guerra Mundial. Na época, metade dos americanos consumidores de notícias optavam pela rádio como meio preferido de as obter. A rádio era muito mais importante do que é agora.

      PRESTÍGIO DOS LOCUTORES

      Uma idéia ou um produto tem mais chace de ser aceito se for recomendado por uma celebridade ou um especialista na matéria. Qualquer publicitário sabe disto. No caso da dramatização de Orson Welles, as pessoas que prestavam declarações eram peritos (ficcionais, claro).

      LINGUAGEM

      A peça estava escrita numa linguagem direta, coloquial, realista.

      Fonte: Artigo escrito pelo Marco do Bitaites

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