A Terra sem o homem
Imagine que em uma manhã o dia começou como qualquer outro, mas com uma grande diferença: todos os humanos desapareceram. Como seria a Terra sem pessoas? Obviamente, muito mais silenciosa. Mas o que realmente aconteceria? Poderia a natureza apagar todos os traços da nossa existência?
Algumas coisas mudariam rapidamente. Primeiro, os serviços de energia começariam a desligar. Em uma cidade como Nova York, as bombas nos metrôs seriam desligadas e a água invadiria tudo. As ruas acima entrariam em erosão rapidamente e desabariam. Em alguns dias, a natureza começaria a espalhar-se. Sem a constante atenção dos humanos, o exterior dos edifícios e construções ficaria imundo, racharia, e a vegetação começaria a se enraizar. Passo a passo, um estranho e novo ecossistema urbano começaria a se desenvolver. E rápido.
Dez anos depois e o Central Park está se tornando um vasto pântano, como era no começo. Cem anos passam e a infra-estrutura de aço de muitos prédios está sendo corroída. As fachadas estão se soltando. Alguns começam a cair. O que antes eram agitadas avenidas, agora são canyons. Mil anos depois e quem sabe? Com o aquecimento global e a proliferação de descendentes de animais de zoológico, o Central Park começaria talvez a se parecer com algum lugar da África.
Dez mil anos se passam. Talvez algum traço da nossa civilização permaneça, e não apenas o lixo tóxico que geramos para termos combustível para nossa existência.
Uma Terra sem pessoas provavelmente seria muito diferente. Mas quem saberia disso?
Fonte: Scientific American Brasil
Este ano é o Ano Internacional do Planeta Terra, ao longo deste ano traremos para o VisãoGlobal matérias como esta, entrevistas, etc… No presente caso o vídeo acima, embora já esteja na rede há algum tempo, achamos interessante sua exibição em nosso espaço, bom proveito!
Quem é Alan Weisman?
Foto: Ronn Spencer
Alan Weisman é autor de cinco livros, incluindo The world without us (St. Martin’s Press, 2007). Seu trabalho já apareceu na Harpers, New York Times Magazine, Los Angeles Times Magazine, Discover, Atlantic Monthly, Condé Nast Traveler, Orion e Mother Jones. Weisman tem um programa na National Public Radio e na Public Radio International e é produtor sênior da Homelands Productions, organização jornalística que produz séries independentes de documentários para a rádio pública. Ele leciona jornalismo internacional na University of Arizona.
Alan Weisman passou mais de três anos a viajar pelo mundo e a conversar com centenas de especialistas para responder a uma pergunta: como evoluiria o planeta se os humanos desaparecessem? A resposta está em “O Mundo sem nós”, um livro tão fascinante quanto provocador que chegou a Portugal com a chancela da “Estrela Polar”.
De passagem pelo país, a convite da APDC-Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações, Weisman falou ao Expresso.
O que o levou a escrever este livro?
Há anos que escrevo sobre o ambiente e cubro assuntos ambientais em todo o planeta. Estas são questões urgentes que as pessoas necessitam saber. Quando olhamos para a questão do aquecimento global, percebemos que os assuntos ambientais estão todos relacionados entre si. Há pormenores que podem ser muito deprimentes, muito assustadores para as pessoas. Muitas pessoas que precisam saber o que se está passando no nosso planeta, não querem pegar num livro que descreve em detalhe esta crise ambiental global. Por isso, tenho andado à procura de uma forma de escrever sobre isso sem afugentar os leitores e também conquistando uma audiência mais ampla que as pessoas que já têm consciência ambiental.
Porque decidiu criar um cenário onde a Humanidade já tinha desaparecido?
O que fiz foi, em vez de escrever um livro que afugenta as pessoas porque elas, ao lerem-no, pensam “Oh, este é um livro que diz que se não mudarmos o que estamos a fazer vamos todos morrer”, escrever um livro em que já estamos todos mortos. A partir daí, o planeta começa a recuperar sem nós. Como se desenvolveria o resto da Natureza sem a pressão que lhe impomos todos os dias? Como lidaria com as coisas que deixaríamos? Por exemplo, lançamos muito dióxido de carbono na atmosfera. Quanto tempo levaria a Natureza a reabsorver esse dióxido de carbono? E em relação aos produtos químicos, plásticos e material radioativo? Poderá a Natureza curar-se do que lhe fizemos? E todos os nossos edifícios, todas as nossas cidades? O que lhes aconteceria? Poderia a Natureza apagar todos os nossos vestígios? São perguntas como essas que o livro tenta responder. As pessoas podem olhar para o futuro sem se preocuparem com o que lhes vai acontecer. No livro, já estão todas mortas.
As suas conclusões são baseadas em fatos científicos?
Tudo o que está no livro resulta de uma apurada pesquisa. Foram quase três anos e meio de investigação, mas muito da pesquisa que fiz no passado foi útil. Visitei muitos lugares em todo o mundo e falei com centenas de cientistas e pessoas. Perguntei-lhes o que aconteceria se todos desaparecessemos subitamente.
De certa forma, essa viagem ao futuro é também um regresso a um passado sem humanos.
No livro, falo com muitos paleontólogos e paleoecologistas para perceber como o mundo era antes das pessoas. Fui, por exemplo, a África para perceber como as pessoas evoluíram e fui a outros continentes, como a América do Norte, para perceber que animais viveram aqui antes da chegada dos humanos. Existiam muitos mais animais grandes, com mais de uma tonelada, que desapareceram com a chegada dos humanos.
Que conclusão o surpreendeu mais?
Diria duas coisas. Em primeiro lugar, fiquei muito surpreendido por perceber que havia tanto plástico no Mundo. A maioria dos resíduos de plástico acaba rapidamente a boiar no mar, porque é muito leve. Porque não temos micróbios na Terra capazes de comer o plástico - pode demorar milhares ou centenas de milhares de anos até tal acontecer -, este é quebrado pela força do mar em pedaços menores, que são comidos por muitas criaturas marinhas. É algo que me preocupa muito. A segunda situação é muito reconfortante. A vida é extremamente resistente. Tem uma força enorme e surpreendente. Irá encontrar sempre uma forma de regressar, mesmo quando acontecerem coisas más. Não estou preocupado com o planeta, porque a vida na Terra já passou por várias extinções e depois de partirmos a vida voltará. Poderá é ser diferente do que vemos hoje.
Ou seja, há vida na Terra além dos humanos.
Há, mas isso não quer dizer que não tenhamos que cuidar melhor o planeta. Não escrevi este livro porque pense que as pessoas devam desaparecer. Acredito que pertencemos a este planeta como as outras espécies. Trabalhamos muito para nos desenvolver, mas crescemos demasiado e tornamo-nos tão poderosos que estamos desequilibrados em relação ao resto da Natureza. Estamos causando a destruição de outras espécies, incluindo espécies que precisamos, e, por isso, não conseguiremos sobreviver. O que espero que os leitores vejam no meu livro é como o mundo recuperaria e seria bonito sem os humanos e, com isso, pensar se existe uma forma de ficarmos na Terra e deixar que o resto da Natureza floresça de novo para que tenhamos um ambiente mais saudável.
É uma questão para desenvolver num próximo livro?
Talvez. No final deste, levanto uma questão que tem a ver com o fato de, a cada quatro dias, haver mais um milhão de pessoas na Terra. Deixo o leitor pensar como seria o Mundo se não estivéssemos nos reproduzindo à velocidade que estamos. Sempre que, na história da Terra, uma espécie cresceu demasiado, a sua população entrou em colapso. Algumas espécies extinguiram-se por completo. Se os seres humanos continuarem a crescer da forma que estão, se atingirmos nove bilhões de seres humanos ao meio deste século, isso talvez seja demasiado e a nossa população entre em colapso. Acho que devemos pensar em reduzir a população antes que a Natureza o faça por nós.
Devemos estar preocupados com o fim da Humanidade?
Acho que toda a gente já está. Mesmo os mais egoístas sabem que estamos a usar demasiados recursos e a criar demasiada poluição. As pessoas estão hoje muito preocupadas com o aquecimento global, muito mais que há 10 anos. Estas idéias são hoje importantes para muita, muita gente. O livro tem sido um “best-seller” nos Estados Unidos, no Canadá e na Alemanha, e está agora a ser publicado em 27 línguas diferentes. Não é apenas um livro para ambientalistas e ecologistas. O fato de vender tantos exemplares é a prova que muita gente está atenta, não apenas as pessoas que amam as árvores e a Natureza.
Esperava este sucesso?
De certa forma. Não queria escrever mais um livro sobre o ambiente que apenas algumas pessoas lessem. Quis escrever um livro que fosse acessível a muita gente e que fosse, simultaneamente, um livro interessante de se ler e não afugentasse os leitores. Estou muito grato por isso ter sido conseguido.
Fonte: Nelson Marques do Expresso.pt
INTRODUÇÃO
É uma fantasia comum imaginar que você é a última pessoa viva na Terra. Mas e se todos os seres humanos fossem varridos de repente do planeta? Tal premissa é o ponto de partida de The world without us (O mundo sem nós). Nesse longo exercício de pensamento, Weisman não especifica exatamente o que elimina o Homo sapiens, em vez disso ele simplesmente assume o desaparecimento repentino de nossa espécie e projeta a seqüência de eventos que provavelmente ocorreria nos anos, décadas e séculos a seguir.
Segundo Weisman, uma grande parte de nossa infra-estrutura física começaria a ruir quase que imediatamente. Sem equipes para a manutenção das ruas, nossos grandes bulevares e rodovias começariam a rachar e a ficar abaulados em questão de meses. Nas décadas seguintes, muitas casas e edifícios comerciais ruiriam, mas alguns itens comuns resistiriam à degradação por um tempo extraordinariamente longo. Panelas de aço inoxidável, por exemplo, poderiam durar milênios, especialmente se ficassem enterradas nos sítios pré-históricos cobertos por ervas daninhas em que nossas cozinhas se transformariam. E certos plásticos comuns permaneceriam intactos por centenas de milhares de anos, não se decompondo até que micróbios evoluíssem para adquirir a capacidade de consumi-los.
Se os seres humanos desaparecessem amanhã, o magnífico horizonte de Manhattan não sobreviveria por muito mais tempo. Weisman descreve como a floresta de concreto de Nova York voltaria a ser uma floresta real. “O que aconteceria a todas as nossas coisas se não estivéssemos mais aqui? Será que a natureza conseguiria eliminar todos os nossos vestígios? Há alguma coisa que fizemos que seja indestrutível ou indelével? Será que, por exemplo, a natureza transformaria a cidade de Nova York na floresta que a ocupava quando Henry Hudson a viu pela primeira vez, em 1609?
Tive uma conversa fascinante com engenheiros e profissionais de manutenção em Nova York sobre o que seria necessário para conter a natureza. Descobri que nossa infra-estrutura imensa, imponente e opressiva, que parece tão indestrutível, é na verdade bastante frágil e continua existindo e funcionando graças aos poucos seres humanos dos quais todos nós realmente dependemos.
O nome Manhattan vem de um termo indígena que se refere a colinas. Ela era uma ilha cheia de morros. A região acabou aplanada para receber a grade de ruas. Ao redor das colinas costumavam fluir cerca de 40 ribeirões diferentes e havia várias nascentes por toda a ilha. O que aconteceu a toda aquela água? A quantidade de chuvas ainda é praticamente a mesma, mas hoje a água está dominada. No subterrâneo. Parte da água escorre pelo sistema de drenagem, mas ele nunca é tão eficiente quanto a natureza. Assim, há muita água correndo no subsolo, tentando sair. Mesmo em um dia claro e ensolarado, as pessoas responsáveis pela manutenção do metrô em Manhattan precisam bombear 49 milhões de litros de água para fora, ou os túneis inundariam.
Há lugares em Manhattan onde eles lutam o tempo todo contra o afloramento de rios subterrâneos que corroem os trilhos. Nas salas de bombeamento você vê uma quantidade enorme de água jorrando. E lá embaixo, em uma pequena caixa, estão as bombas que levam a água embora. Mas se os seres humanos desaparecessem amanhã, uma das primeiras coisas a ocorrer seria o desligamento da eletricidade. Nossa energia elétrica vem em grande parte de usinas nucleares ou movidas a carvão, que têm chaves de segurança automáticas para garantir que não saiam do controle no caso de ninguém estar monitorando o sistema. Assim que a energia elétrica fosse cortada, as bombas deixariam de funcionar, e os túneis do metrô começariam a se encher de água. Em 48 horas haveria muitas inundações em Nova York, algumas delas visíveis na superfície. Poderia acontecer transbordamento das bocas-de-lobo. Elas ficariam rapidamente entupidas com detritos – para começar, com os inúmeros sacos plásticos que o vento sopraria pela cidade e, mais tarde, como ninguém apararia a vegetação dos parques nem recolheria a vegetação seca, com o acúmulo de folhas e material orgânico.
Mas o que aconteceria no subsolo? Corrosão. Pense nas linhas de metrô abaixo das avenidas. Enquanto espera pelo trem, observe aquelas colunas de aço que sustentam o teto, que na verdade é a rua. Tudo começaria a sofrer corrosão e, ao final, ruiriam. Após algum tempo surgiriam crateras nas ruas – possivelmente em apenas duas décadas. E em pouco tempo algumas ruas voltariam a ser os riachos de superfície que existiam em Manhattan antes.
Muitos dos prédios em Manhattan estão apoiados sobre leito rochoso. Mas mesmo se contarem com vigas de aço na fundação, essas estruturas não foram projetadas para ficar submersas o tempo todo. Assim, também os prédios começariam a ruir. E como a mudança climática deve causar eventos mais extremos, com mais furacões atingindo a costa leste, a queda de um prédio, num desses eventos, derrubaria mais alguns, criando uma clareira. Essas clareiras receberiam sementes de plantas lançadas pelo vento, e estas se estabeleceriam nas fendas do asfalto. As clareiras já estariam cobertas de folhas, mas a cal vinda do concreto moído criaria um ambiente menos ácido para várias espécies. A cidade começaria a desenvolver seu próprio ecossistema.
Toda primavera, quando a temperatura estivesse oscilando em torno do ponto de congelamento, novas rachaduras apareceriam. A água entraria nas rachaduras e congelaria. As rachaduras aumentariam e mais sementes seriam levadas pelo vento para dentro delas. Isso aconteceria bem rapidamente.
Como os ecossistemas da Terra mudariam se os seres humanos estivessem fora da jogada? Weisman diz que podemos ter um vislumbre desse mundo hipotético observando bolsões “primitivos” onde as marcas da humanidade sejam mais leves.
Para ver como o mundo seria se os humanos desaparecessem, comecei indo a lugares abandonados, que as pessoas deixaram por diferentes motivos. Um deles é o último fragmento de floresta primitiva na Europa. É como num conto de fadas dos irmãos Grimm: uma floresta escura, fechada, com lobos uivando e toneladas de musgo pendurado nas árvores. E esse lugar existe. Ele fica na fronteira da Polônia com a Bielo-Rússia.
Era uma reserva de caça, estabelecida nos anos 1300 por um duque lituano que mais tarde se tornou rei da Polônia. Uma série de reis poloneses e depois czares russos a mantiveram como área de caça particular. Houve pouco impacto humano. Após a Segunda Guerra Mundial, ela se tornou um parque nacional. Você vê carvalhos e freixos de mais de 45 metros de altura e 3 metros de diâmetro, com sulcos tão profundos na casca que pica-paus os enchem de pinhas. Além de lobos e alces, essa floresta abriga o último rebanho selvagem de Bison bonasus, o bisão europeu nativo.
Também visitei a zona desmilitarizada coreana. Nela há um pequeno trecho de terra – com cerca de 240 km de extensão por 4 km de largura – junto do qual dois dos maiores exércitos do mundo ficam posicionados um diante do outro. Entre eles fica uma reserva “involuntária” de vida selvagem. É possível ver espécies que poderiam estar extintas se não fosse por aquele pedacinho de terra. Às vezes você ouve os soldados gritando uns com os outros por alto-falantes ou exibindo sua propaganda política de um lado a outro, e no meio de toda aquela tensão é possível ver bandos de garças azuis que passam o inverno lá.
Mas para realmente compreender um mundo sem os seres humanos percebi que é preciso aprender como o mundo era antes da nossa evolução. Então fui para a África, onde os seres humanos surgiram, e o único continente onde ainda há animais selvagens de grande porte.
Antigamente havia animais de grande porte em todos os continentes e em muitas das ilhas. Tínhamos criaturas enormes na América do Norte e do Sul – preguiças-gigantes maiores que mamutes; castores do tamanho de ursos. O motivo de sua dizimação é controverso, mas muitos indícios apontam para nós. As extinções em cada massa de terra parecem coincidir com a chegada dos seres humanos. Mas a África é o local onde os seres humanos e os animais evoluíram juntos e os bichos de lá aprenderam estratégias para evitar nossa ação predatória. Sem os seres humanos, a América do Norte provavelmente se tornaria em curto prazo um bom habitat para cervos gigantes. À medida que as florestas se restabelecessem por todo o continente, herbívoros maiores se desenvolveriam, no tempo evolutivo, para tirar proveito de todos os nutrientes presentes nas espécies lenhosas. Predadores maiores também evoluiriam seguindo o mesmo padrão.
Pensar em uma Terra sem humanos pode ter benefícios práticos. Weisman explica que sua abordagem pode trazer uma nova luz aos problemas ambientais.
Não estou sugerindo que temos de nos preocupar com o desaparecimento repentino dos seres humanos amanhã, com algum raio alienígena mortal que nos eliminaria a todos. Pelo contrário, o que descobri é que essa forma de olhar para nosso planeta – fazendo-nos sumir apenas teoricamente – revelou ser tão fascinante que desarma os temores das pessoas ou a terrível onda de depressão que pode nos envolver quando lemos sobre os problemas ambientais que criamos e os possíveis desastres que poderemos enfrentar no futuro. Porque, francamente, sempre que lemos sobre essas coisas, nossa preocupação é: oh, meu Deus, nós vamos morrer? Será este o fim?
Meu livro elimina essa preocupação bem no começo ao dizer que o fim já aconteceu. Por qualquer motivo, nós, seres humanos, desaparecemos, então agora vamos relaxar e ver o que acontece em nossa ausência. É uma maneira deliciosa de reduzir todo temor e ansiedade. E olhar para o que aconteceria em nossa ausência é outra forma de enxergar melhor o que acontece em nossa presença. Por exemplo, pense em quanto tempo levaria para eliminar algumas das coisas que criamos. Algumas das invenções mais formidáveis têm uma longevidade que ainda não podemos prever, como alguns dos poluentes orgânicos persistentes que começaram como pesticidas ou produtos químicos industriais. Ou nossos plásticos, que têm uma presença gigantesca em nossa vida e no ambiente. E quase todas essas coisas só surgiram após a Segunda Guerra Mundial.
Você começa a pensar que provavelmente não há como termos resultado positivo, e que estamos testemunhando uma maré esmagadora de proporções geológicas desencadeada pela raça humana na Terra. Eu levanto a possibilidade, quase no final do livro, de os seres humanos poderem continuar fazendo parte do ecossistema de forma muito mais equilibrada com o resto dos ocupantes do planeta. É algo que abordo ao olhar primeiro não apenas para as coisas horríveis que criamos, e que são tão assustadoras – como a radioatividade e os poluentes, alguns dos quais poderão ainda persistir até o fim do planeta –, mas também para algumas das coisas belas que fizemos.
Levanto a questão: não seria uma triste perda a humanidade ser extirpada do planeta? E quanto aos nossos maiores atos de arte e expressão? Nossa mais bela escultura? Nossa melhor arquitetura? Algum sinal que indique que estivemos aqui a certa altura resistirá? Essa é a segunda reação que obtenho junto às pessoas. A princípio elas pensam: esse mundo seria lindo sem nós. Mas então reconsideram: não seria triste não estarmos aqui? E não acho que o desaparecimento de todos nós da face da Terra seja necessário para voltarmos a um estágio mais saudável.
QUEM PODERIA NOS SUBSTITUIR?
Dizem que a natureza abomina o vácuo. Se os seres humanos desaparecessem, alguma outra espécie poderia evoluir para um animal que fabricasse ferramentas, tivesse plantações, usasse linguagem e fosse capaz de dominar o planeta? Segundo Alan Weisman, os babuínos poderiam ter uma chance razoável. Eles têm o maior cérebro entre os primatas, com exceção do Homo sapiens, e, como nós, se adaptaram a viver nas savanas à medida que os habitats florestais na África encolheram.
Weisman escreve em The world without us: “Se os ungulados dominantes nas savanas – o gado – desaparecessem, os gnus se multiplicariam para ocupar seu lugar. Se os humanos desaparecessem, os babuínos ocupariam o nosso? Será que sua capacidade craniana permaneceu suprimida durante o Holoceno porque saímos à frente deles, sendo os primeiros a descer das árvores? Sem os humanos no seu caminho, será que o potencial mental deles aumentaria e os levaria a um avanço evolucionário repentino em todas as fissuras de nosso nicho abandonado?”.
Hollywood, com sua longa série de filmes Planeta dos macacos, parece concordar com Weisman. Um segundo cenário fora da África poderia se desenrolar centenas de milhares de anos após o primeiro. Alguém se perguntaria como os arqueólogos babuínos do futuro interpretariam os extraordinários artefatos humanos – esculturas, cutelaria, sacos plásticos – enterrados sob seus pés. Weisman acha que “o desenvolvimento intelectual de qualquer criatura que os escavasse poderia ser abruptamente elevado para um plano evolucionário mais alto pela descoberta de ferramentas já prontas”.
PARA SABER MAIS
Plastics and the environment. Organizado por Anthony Andrady. John Wiley & Sons, 2003.
Twilight of the mammoths: ice age extinctions and the rewilding of America. Paul S. Martin. University of California Press, 2005.
Extinction: how life on Earth nearly ended 250 million years ago. Douglas H. Erwin. Princeton University Press, 2006.
A vingança de gaia. James Lovelock. Intrínseca, 2006.
Fonte: Scientic American-Brasil




