O governo brasileiro anuncia que a Petrobras achou muito petróleo, mas não é para agora…
Com o petróleo custando quase 100 dólares o barril, a busca pelo combustível fóssil está levando as empresas a abrir fronteiras antes apenas sonhadas.
Uma delas é o Ártico, cujas reservas estão mapeadas e até assinaladas com bandeiras por países cobiçosos das riquezas de suas entranhas geladas. Na semana passada, o mundo soube que a Petrobras conseguiu extrair petróleo de uma profundidade de 7.000 metros, algo tão descomunal que equivaleria quase ao Monte Everest abaixo da linha d’água – e em mar alto.
A empresa petrolífera brasileira foi a primeira a dominar a tecnologia de prospecção em profundidade – 2.000 metros – e agora caminha para ser líder mundial também em superprofundidade arrancando petróleo de depósitos lacrados a sete chaves pela natureza. "Existem poucos lugares no mundo em que se consegue extrair petróleo de águas profundas. O Brasil é um deles e, por isso, tem sorte.
Como só a Petrobras desenvolveu a competência para extrair desse tipo de reserva, os brasileiros merecem colher os benefícios disso", disse o geólogo Colin J. Campbell, Ph.D. da Universidade de Oxford e um dos maiores especialistas em petróleo do mundo.
O que brotou das profundezas, por enquanto, são amostras de petróleo de alta qualidade vindas de poços de teste de uma área de prospecção conhecida como Tupi, localizada a 180 quilômetros da costa perto da Bacia de Santos, no litoral paulista. Mas para os experimentados geólogos da Petrobras é indício suficiente para comemorar.
"Essa descoberta muda o país de patamar no mercado internacional. Provavelmente teremos de reavaliar e até ampliar nosso plano de investimentos", diz Sergio Gabrielli, presidente da Petrobras.
Para chegar ao petróleo, as sondas da empresa furaram enormes camadas de rocha e atravessaram uma gigantesca barreira subterrânea formada de sal. Por isso se diz que o óleo foi achado no pré-sal. As pesquisas na região continuam e, dentro de dois anos, será conhecida a real extensão dos depósitos. Depois disso, serão necessários mais quatro anos para que o petróleo pré-sal brasileiro possa ser bombeado em volume comercial a um custo competitivo. Isso é um ponto vital.
Mesmo com o barril a 100 dólares, será preciso ainda muito aprimoramento tecnológico para extraí-lo de 7.000 metros de modo competitivo. Quando a profundidade de exploração duplica, por exemplo, de 2.000 para 4.000 metros, o custo da operação triplica. Mas os especialistas são unânimes em dizer que, ainda assim, vale muito a pena.
O primeiro poço dessa profundidade custou à Petrobras 240 milhões de dólares e levou um ano para ser concluído. O custo caiu para 60 milhões e o prazo de conclusão para dois meses. Podem cair mais. Além disso, os custos são rateados com as sócias da Petrobras naquela área, a inglesa BG Group (25%) e a portuguesa Galp Energia (10%).
A área de Tupi abrigaria reservas de 5 bilhões a 8 bilhões de barris de petróleo. Isso mudaria a posição do Brasil no mercado mundial de importador a exportador. Parece um volume estrondoso. Mas o mundo é sedento por petróleo, e ao ritmo atual de consumo global de 86 milhões de barris por dia toda a reserva de Tupi seria consumida em apenas três meses.
A grande aposta de todos é que exista petróleo naquela rocha abaixo da camada de sal não apenas em Tupi, mas em toda a região que vai da costa de Santa Catarina à costa do Espírito Santo. Se Tupi for apenas uma amostra das riquezas dessa enorme região, então haverá motivos para o otimismo típico e legítimo que domina os governantes quando se encontra petróleo – mesmo que seja o mais pálido sinal dele. "Modificamos o paradigma geológico do país. É uma descoberta que terá importância para todas as gerações do Brasil", disse a ministra Dilma Rousseff.
Mas pode-se tomar o todo pela parte? Se tem petróleo fino brotando dos poços na área de Tupi, haverá em toda aquela região? É uma aposta. Nesse cenário positivo, a região estaria produzindo daqui a seis ou sete anos mais de 70 bilhões de barris. Isso levaria o Brasil da 24ª posição entre os países produtores para o nono lugar, à frente da Nigéria e dos Estados Unidos. É preciso ir devagar com o andor.
A história mostra que nesse ramo nem sempre tudo sai conforme o figurino. Em 1978, a British Petroleum, então com um contrato de risco com o governo Geisel, anunciou ter encontrado petróleo na Bacia de Santos em rocha pré-sal, a 5.000 metros de profundidade… Será o mesmo petróleo que se anuncia agora? Melhor que não.
A exploração de um campo de petróleo obedece a um árduo cronograma que pode levar até dez anos entre a prospecção e o óleo jorrando na plataforma. Para que se possa contabilizar cada barril de petróleo debaixo do solo como reservas provadas – o que muda a posição do país no ranking dos produtores – é necessário percorrer as seguintes etapas:
• A perfuração exploratória, quando se obtêm informações sobre a estrutura geral do poço. No caso de Tupi, essa descoberta foi feita em 2005.
• A avaliação do volume de petróleo recuperável. Ou seja, quanto daquele poço é possível ser extraído de acordo com as características gerais do óleo encontrado. É nessa fase que se encontra a Petrobras agora. E é devido a esse grau de incerteza que a empresa informou que pode haver ali entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris, uma diferença considerável.
• A elaboração do plano de desenvolvimento, a partir do qual as reservas começam a se tornar mais palpáveis. É aí que se sabe quanto vai custar a operação, o nível de produção, a pressão com que o petróleo pode jorrar e tudo mais que sinaliza a viabilidade econômica do poço. Essa fase ainda demora pelo menos dois anos.
A descoberta veio acompanhada de um travo um tanto amargo de regresso a um tempo em que a mão do estado era dominadora na economia. A começar por uma reunião do Conselho Nacional de Política Energética, que ocorreu nas dependências da Petrobras.
Embora seja estatal, ela é apenas mais uma das empresas do setor. O presidente da Petrobras, Sergio Gabrielli, explicou que somente ali havia as condições para a apresentação dos gráficos, filmes e todo o material produzido em três dimensões que comprovam a extensão da descoberta.
O mal-estar no mercado também ocorreu quando se anunciou que o CNPE retiraria da próxima rodada de licitações de áreas de exploração de petróleo os blocos vizinhos do campo de Tupi. Estão habilitadas 66 empresas, entre as quais investidores pesos-pesados como a Vale do Rio Doce e a OGX, do empresário Eike Batista. "Problemas como esse criam uma expectativa desfavorável dos investidores em relação ao Brasil", diz o advogado Paulo Valois, especialista em energia e infra-estrutura.
Essa questão deverá se resolver ao cabo de uma guerra de interpretações das regras. Mas a briga para participar de prospecção na área contígua a Tupi é mais um sinal de que ali tem mesmo petróleo explorável. Seria bom para todos.
O SIGNIFICADO DAS RESERVAS
O petróleo espalha-se de forma desigual pelo subsolo do planeta. Vem daí apenas parte da dificuldade de estabelecer ao certo a quantidade disponível em cada campo que se descobre.
Tanto é assim que a informação mais segura que se pode alcançar, como por exemplo o total de petróleo garantido para exploração no mundo, tem apenas 90% de certeza.
São as chamadas reservas provadas. É com base nessa informação que se fazem os planejamentos energéticos e se pode deduzir por quanto tempo a humanidade ainda poderá aplacar sua sede por combustíveis fósseis.
A reserva que se descobriu agora estava há bilhões de anos intocada abaixo da camada de rochas salinas que começou a se formar no momento em que a África e a América se separaram. Ao contrário do que aconteceu em outros locais do litoral brasileiro, naquele ponto não houve um deslocamento de placas que abrisse brechas pelas quais o petróleo pudesse subir a níveis mais próximos da superfície. Nos próximos anos será possível confirmar sua real extensão.
Fonte: Ronaldo França (Com reportagem de Ronaldo Soares) para a Veja(nº2034)
Governo quer aumentar a sua fatia na receita
O potencial das reservas gigantes de petróleo e gás de Tupi anunciado pela Petrobras na semana passada assanhou a sede do governo de aumentar suas receitas com a exploração do combustível. Sabatinado pela Comissão de Infra-Estrutura do Senado, o presidente da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Haroldo Lima, afirmou que a União pretende ficar com mais de 50% das receitas obtidas com o petróleo que vier a ser extraído da megajazida de Tupi. Trata-se de uma fatia maior do que a que o governo recebe hoje das empresas que exploram os campos de petróleo brasileiros.
De acordo com Lima, os planos revelados nesta terça não implicariam mudanças no marco regulatório do setor, apenas uma revisão na política de exploração do petróleo nacional, uma vez que a nova reserva tem a capacidade de aumentar em mais de 50% a produção do país.
O presidente da agência explicou que as companhias que recebem a concessão de exploração de petróleo no Brasil já estão sujeitas a recolher até 50% do que ganham aos cofres públicos.
São 10% de royalties e mais uma "participação especial" de até 40%, cobrada somente em reservatórios grandes e de alta produtividade. "Na hora em que consideramos isso insuficiente, é de se supor que o estado esteja desejoso de fazer um contrato em que se ganhe mais."
Partilha - A tese do diretor é que o Brasil passe a adotar o modelo de exploração usado nos países em que se produz muito petróleo. Hoje em dia, as empresas operam no país em regime de concessão, em que, embora assumam todo o risco e o custo da exploração e paguem royalties e "participações especiais" ao governo, são donas do petróleo. Este regime, segundo Lima, é comum em países com poucas reservas.
Países com muita produção adotam um modelo chamado partilha da produção, em que o concessionário faz a exploração e assume os riscos, mas não tem a propriedade do produto obtido – ele é do país.
A solução mais rápida para que o governo aumente suas receitas sobre o novo campo de petróleo seria baixar um decreto estabelecendo um aumento na "participação especial", conforme disse o dirigente. Só no ano passado, o governo arrecadou 7,7 bilhões de reais em royalties e 8,8 bilhões em "participação especial". É possível que a Lei do Petróleo tenha de ser alterada para que a União receba uma fatia maior. De qualquer forma, a discussão só começou.
Fonte: Veja.com



