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Archive for the ‘Geografia, Geologia & Cartografia’

Queimadas ameaçam as nascentes do maior rio genuinamente nordestino

14/10/2007 Publicado por: Xico Lopes Categorias: Brasil, Comportamento, Geografia, Geologia & Cartografia, Meio Ambiente & Ecologia, Sustentabilidade & Desenvolvimento No Comments →

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O rio S. Domingos, completamente seco: OAB do Piauí organizou a "Expedição Nascentes Urgente"

O Rio Parnaíba, localizado entre os estados do Piauí e Maranhão, é considerado o maior rio do nordeste, com 1.400 quilômetros de extensão, levando-se em conta que ele nasce e deságua na região. Mas, mais recentemente, o Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba vem sofrendo com intensas queimadas causadas pela pecuária e o agronegócio desordenado da soja, que estimulam a cada dia o seu desaparecimento.

São ao todo 7.300 km², localizados entre as Serras a Tabatinga e Chapada das Mangabeiras, na divisa entre os estados de Piauí, Bahia, Tocantins e Maranhão. Suas nascentes se formam a partir de ressurgências na Chapada das Mangabeiras, que originam os cursos dos rios Lontras, Curriola e Água Quente que, por sua vez unidos, formam o rio Parnaíba.

O registro da catástrofe foi feito pela “Expedição Nascentes Urgente”, entre os dias 6 e 9 de setembro, a qual foi idealizada pela OAB - Ordem dos Advogados do Brasil, secção do Piauí, com o apoio de diversos órgãos e entidades.

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O fogo é uma constante na Chapada das Mangabeiras

A expedição é considerada um marco na luta da sociedade pela preservação do Rio Parnaíba e também pretende chamar a atenção para as questões que ainda precisam ser solucionadas com relação à implantação do Parque Nacional das Nascentes.

Criado em 2002, com aproximadamente 749 mil hectares, o parque está encravado no quadrilátero dos estados do Piauí, Maranhão, Bahia e Tocantins, mas apresenta problemas fundiários, de demarcação, e outras pendências judiciais.

A OAB está preparando, uma ação civil pública perante a Justiça Federal para que seja ordenada a liberação de recursos no valor de 4 milhões de reais, já existentes e aprovados pela Câmara de Compensação Ambiental. Para o coordenador da expedição, Conselheiro Federal Marcus Vinícius Coelho, “a utilização desses recursos em beneficio do Parque não pode ser adiada, o rio Parnaíba pede socorro e a degradação permanente das Nascentes é prova do risco de dano irreparável. A sociedade exige que os poderes públicos não mais sejam omissos e adotem medidas efetivas de proteção da vida do rio”.

Esses fatores burocráticos estão comprometendo a biodiversidade do parque que agoniza há anos, um exemplo claro dessa situação foi o que pode registrar a expedição do professor, João Gabriel Baptista, em 03 de setembro a 13 de 1977, que descreveu em seu livro, Geografia Física do Piauí, “extensas áreas arrasadas pelo fogo” com incêndios que duravam 12 dias, torrando as margens das nascentes.

Após 30 anos a Expedição Nascentes Urgente presenciou uma situação idêntica, pois as águas cristalinas do Riacho Água Quente se misturavam com as cinzas no das queimadas em seu leito. O presidente da OAB no Piauí, Norberto Campelo, presenciou e mostrou sentimento de revolta pelo descaso com o meio ambiente no Estado.

“Constatamos com muita tristeza que a situação é mais grave do que presenciaram os exploradores há dez anos. Nosso parque está destruído pela ação do homem. Precisamos de políticas públicas concretas com investimentos maciços, nós não vamos pedir, vamos exigir que os nossos governantes cumpram as suas funções com os papéis a que se propuseram; mantendo saudável e viável a vida do nosso estado.”, disse Norberto.

A expedição Nascentes Urgente pretende adotar ações reiteradas e freqüentes, e somente será considerada encerrada com a implementação do Parque.

Em cima da Mesorregião Chapada das Mangabeiras e Serra da Tabatinga estão localizados imensos projetos de soja e milho, pois o local é tido como a última fronteira agrícola do Brasil, apresentando grande potencial na produção de grãos. Para isso, muitas áreas estão sendo degradadas, comprometendo o ciclo da água que abastece os mananciais.

A Expedição Nascentes Urgente encontrou palhas de milho dentro da área de preservação trazidas pelo vento dos projetos agrícolas em cima da chapada. Os nativos afirmam que as plantações de milho e soja se expandem rapidamente.

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Uma das várias nascentes ameaçadas na região

As plantações de soja que estão invadindo o platô da Serra da Tabatinga ameaçam as nascentes, pois com as chuvas canalizam e escorrem pelas paredes da rocha, despejando as águas repletas de defensivos agrícolas diretamente no local das nascentes, que estão logo abaixo dos paredões.

Todavia, a exemplo do que ocorre em outras partes do Brasil, a situação social existente em Mangabeiras espelha um panorama caracterizado por extrema desigualdade. A análise de alguns indicadores referentes aos setores de educação fundamental, saneamento, saúde, distribuição de renda e desenvolvimento humano evidencia um contexto no qual parte significativa da população não consegue ter acesso aos serviços sociais básicos.

Um dos guias da região, conhecido como Gugu, disse que muitos piauienses sobem a chapada para trabalhar nas plantações. Acrescentou ainda que o trabalho lá é muito duro e mal remunerado.

A superintendente do Ibama do Maranhão, Marluze Pastor, admite que “não é preciso desmatar mais para plantar soja”, pois para ela é mais importante preservar os recursos hídricos e ambientais para se buscar uma sustentabilidade.

“Não estou dizendo que não deva se plantar mais soja, é que devíamos ter o compromisso de não abrirmos mais a fronteira agrícola, não fazer mais desmatamentos e saber utilizar as áreas desmatadas que já são muitas, e o que acontece é que a cada ano desmatam mais comprometendo todo o ecossistema.”, disse Marluze.

Os solos nestas chapadas são profundos e de baixa fertilidade natural e nos declives das vertentes apresentam-se arenosos rasos e pobres, com a presença de afloramentos rochosos e com alta permeabilidade. Devido a esta grande permeabilidade a chapada é formadora de um grande número de nascentes que irão compor três dos principais rios brasileiros (os rios São Francisco, Tocantins e Parnaíba).

Muitos rios se encontram agonizando no Piauí, é o caso do Rio Gurguéia que era o principal afluente da Bacia do Rio Parnaíba, pois a sua perenidade foi tomada pela areia. Este foi preço que a prática do agronegócio da soja deu em troca, resultando em grandes desequilíbrios ambientais e econômicos.

 

Fonte: Dionísio Carvalho (texto e fotos) é estudante de jornalismo e ambientalista no Piauí para a EcoAgência Solidária de Notícias

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