Carl Bernstein e a praga do mau jornalismo
Carl Bernstein e Bob Woodward
Carl Bernstein, ex-repórter do Washington Post, que junto do colega Bob Woodward escreveu as matérias sobre o escândalo Watergate, fez palestra nesta quarta-feira sobre ética e política, patrocinada pela Câmara Americana de Comércio (Amcham).
Durante essa sua passagem no Brasil, Bernstein disse: “Me perguntaram aqui no Brasil o porquê de não conseguirem derrubar o governo, como aconteceu no Watergate. Não me intrometo em questões de outros países, mas respondi que a imprensa não derruba governos, não é a função dela”.
Bernstein avalia que o papel da mídia é fazer apenas o seu trabalho e conseguir a versão mais palpável da verdade.
Ele criticou a “auto-importância que a mídia se dá, como se determinasse o destino de seus países”.
ÉPOCA – Dá para comparar a era Nixon com a era Bush?
Carl Bernstein – Acho que as mentiras podem ser comparadas. O governo Bush foi catastrófico em vários sentidos para os EUA. O problema é que o sistema funcionou na era Nixon.
Ele foi responsabilizado porque a imprensa fez seu trabalho, o Judiciário fez seu trabalho, o Congresso fez seu trabalho. Membros de ambos os partidos estavam interessados na verdade. Nada disso ocorreu na era Bush.
ÉPOCA – A imprensa fez sua parte?
Bernstein – A maior parte do que sabemos sobre as reais políticas da administração Bush – talvez com atraso, não na preparação para a guerra, mas desde que começamos a experimentar dificuldades no Iraque –, sabemos porque os repórteres apareceram com as informações.
Não porque a Casa Branca tenha sido solícita ou porque o Congresso tenha exercido a devida vigilância. Acho que esta administração, em termos do mal duradouro causado ao país, é, talvez, pior que a de Nixon, porque ela não foi responsabilizada. O sistema não se corrigiu.
ÉPOCA – Por que isso ocorreu?
Bernstein – São questões muito complicadas, que não permitem respostas fáceis. É preciso olhar para a cultura, para a sociedade e para o período histórico como um todo.
O nível de indignação em relação às mentiras dos homens públicos não foi suficiente, mesmo depois de a imprensa ter revelado tanto quanto revelou, para fazer com que o sistema político respondesse. O sistema político tem sérios problemas. Ele não está respondendo às necessidades das pessoas.
ÉPOCA – A transformação da notícia em entretenimento não seria, ao menos em parte, responsável por parte disso?
Bernstein – É claro. Em 1992, eu escrevi, para a revista New Republic ,“O triunfo da cultura idiota”. Era sobre as fofocas, o sensacionalismo e a controvérsia fabricada estarem se tornando uma tendência dominante. Obviamente, as coisas pioraram muito nos 15 anos seguintes.
O fato de que quase toda a nossa imprensa, com muito poucas exceções, seja hoje propriedade de conglomerados é uma mudança enorme. O Washington Post, o New York Times, o Wall Street Journal são jornais muito melhores hoje que no tempo de Watergate. Há muito mais informação neles. Mas em geral os donos de veículos de mídia estão muito menos dispostos a alocar os recursos necessários no tipo de reportagem de que precisamos.
ÉPOCA – A cultura idiota mudou a maneira como se faz política nos EUA?
Bernstein – Não só a política. Mudou toda a nossa cultura. E não é algo específico dos EUA. Ocorre no Ocidente inteiro. Tem a ver com as celebridades, tem a ver com o sensacionalismo, com o mau gosto, com a controvérsia manufaturada e com as respostas fáceis para perguntas difíceis. É muito tentador.
Não custa muito dinheiro para fazer. Não requer muita habilidade. Mas não se pode separar o fenômeno jornalístico do fenômeno cultural mais amplo. Isso não pode ser resolvido por uma fórmula, ou por uma lei. Estamos falando de coisas que têm a ver com padrões e valores de uma cultura, e esses fatores levam muitos anos para se desenvolver e para mudar.
ÉPOCA – A internet melhora ou piora essa situação?
Bernstein – Há muito lugar para grande jornalismo na internet. É um jeito diferente de distribuir informação que oferece muitas oportunidades que não existiam antes.
Também oferece oportunidade para todo tipo de abuso que não existia antes. A capacidade de má informação e desinformação é enorme, porque qualquer um pode publicar qualquer coisa. Não há na web um padrão básico comum como aquele pelo qual a assim chamada grande imprensa se guiava. Ao mesmo tempo, há muito mais oportunidade para enquetes, checagem, discussão de opiniões, links.
Fonte: Revista Época-via Blog do Luis Nassif
Carl Bernstein nesta curta entrevista, presta-nos valiosa definição do que deve nortear o bom jornalismo



