Aquecimento global: um tratamento de choque

Na correspondência publicada na edição desta quinta-feira da revista Nature, o cientista e ambientalista James Lovelock (o pai da hipótese Gaia) propõe um tratamento de emergência para o que considera a “patologia do aquecimento global”.
O texto foi publicado em co-autoria com Chris Rapley, diretor do Museu de Ciência de Londres e que foi responsável pela pesquisa Antártica britânica, e basicamente assenta na “Hipótese de Ferro” que já foi discutida no De Rerum Natura.
Como está mencionado em “Hipótese de Ferro”, foi recentemente descoberto que “alterações no suprimento de ferro por parte das águas profundas - como observado em alguns cenários paleoclimáticos e de alteração climática no futuro -, pode ter um papel mais significativo que o pensado previamente”.
James Lovelock e Chris Rapley propõem reproduzir em escala global o trabalho da equipe internacional que induziu mistura de águas profundas ricas em nutrientes com as águas superficiais relativamente pobres, principalmente em ferro. Esta mistura estimularia o crescimento de fitoplâncton que, conforme citado em Nature do mês de abril, pode remover dez vezes mais dióxido de carbono, CO2, do que se supunha, isto é, cada átomo de ferro fornecido permite remover cem mil moléculas de CO2.
O fitoplâncton tem um papel fundamental no sequestro de carbono e na produção dos componentes dos aerossois de sulfato - que afetam o albedo terrestre e a nucleação de nuvens - que os dois cientistas sugerem seja utilizado na regulação climática, instalando nos oceanos tubos que, com o movimento das ondas, bombeariam para a superfície águas profundas -entre 100 metros e 200 metros de profundidade - ricas em nutrientes.
“Acreditamos que não vamos conseguir salvar o planeta com as abordagens tradicionais, como o Protocolo de Quioto e as energias renováveis”, é a opinião de James Lovelock transmitida à BBC.
Os dois cientistas duvidam que os planos atuais para reduzir as emissões de dióxido de carbono sejam eficazes mas admitem que há riscos na sua proposta, principalmente no que consideram que o impacto na acidificação do oceano precisa ser levado em conta. “Mas as apostas são tão altas que colocamos em prática o conceito geral de utilizar a própria energia do sistema terreste para melhorá-lo. A remoção de 500 bilhões de toneladas de dióxido de carbono do ar pela ação humana está além da nossa atual capacidade tecnológica. Se não podemos curar o planeta, talvez possamos ajudá-lo a curar-se sozinho”.
Esta semana acontece no Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI) uma conferência dedicada ao tema fertilização dos oceanos, pelo que segundo David Karl, um biólogo e oceanólogo da Universidade do Hawaii em Manoa, “A oportunidade desta proposta é fantástica”.
Alguns cientistas aí reunidos apontam falhas na proposta, especialmente Scott Doney, um químico do WHOI, ao considerar que trazer para a superfície as águas frias das profundezas, que são mais ricas em CO2 e contêm carbono inorgânico dissolvido, pode ser contraproducente, isto é, libertar ainda mais dióxido de carbono para a atmosfera.
Outro químico do WHOI, Ken Buesseler atentou ainda que “Em todas as conferências a que fui, quando se fala sobre esta idéia da remoção de CO2 por águas oceânicas superficiais, o balanço indica que se transportaria para a superfície nutrientes e carbono inorgânico à mesma taxa em que se remove carbono na biomassa”. Acrescentando que a idéia teria um impacto potencialmente muito negativo na vida marinha (como vimos em relação aos anfíbios).
Karl por seu lado considera que a proposta de Lovelock e Rapley não deve ser descartada sem ser testada: “Conceitualmente a proposta é simplesmente elegante - embora tecnicamente possa ser difícil de ajustar”.
Fonte: Palmira F. da Silva* para o De Rerum Natura
Palmira F. da Silva* é cientista, professora universitária e integrante da equipe de articulistas do De Rerum Natura



