Gradiente pode ser vendida
A dívida da Gradiente pode levar Eugênio Staub a fazer o que nunca imaginou: vender a empresa. O Positivo é candidato à compra.
O empresário Eugênio Staub sempre foi reconhecido como um workaholic incorrigível. Certas vezes, deixava a sede de sua empresa, a Gradiente, jantava em casa e retornava ao escritório para um expediente que se estendia até altas horas da madrugada. No dia seguinte, já estava a postos em sua escrivaninha logo de manhã cedo. O apego à Gradiente é uma marca registrada em sua trajetória. Mas o atoleiro financeiro em que a companhia se meteu pode levar Staub a uma atitude que nunca lhe passou pela cabeça: abrir mão do controle acionário.
Pressionado por uma dívida de R$ 284 milhões, o empresário abriu negociações com possíveis interessados. Um deles seria o grupo Positivo, que há cerca de um ano arrematou R$ 600 milhões na Bovespa. Por fora, correriam outros candidatos, entre soeles o banco de investimentos Pátria e o GP, um dos maiores fundos de private equity do País. Em comunicado enviado à CVM em 20 de dezembro, a Gradiente admite que o plano de negócios e a proposta de reestruturação têm "sido apresentados aos principais credores e potenciais investidores".
Pelo menos por duas vezes, representantes da Gradiente e do Positivo se reuniram para discutir a eventual compra, segundo DINHEIRO apurou.
Os encontros ocorreram antes do Natal. Neles, houve discórdia em um ponto: como o endividamento da Gradiente entraria no cálculo do preço final do negócio? A Gradiente gostaria de um modelo tipo "porteira fechada" - o comprador leva tudo. O pessoal do Positivo achou que, dessa forma, o preço "seria absurdo". Há uma certa urgência de ambas as partes em resolver o assunto. O fôlego da Gradiente parece curto. Entre novembro e dezembro de 2007, dois fornecedores entraram com três pedidos de falência contra a empresa. A Gradiente diz que eles não procedem. O golpe mais duro pode vir nas próximas semanas da Samsung Displays, responsável pelo suprimento de tubos de imagem para a Gradiente. A fornecedora chegou a ameaçar paralisar as entregas, caso as contas atrasadas não sejam colocadas em dia.
Já para o Positivo, a possível aquisição traria pelo menos dois benefícios. Um deles seria a posse de uma marca de prestígio para produtos de consumo eletroeletrônicos, embora com alguns sinais de envelhecimento. Dois: daria rapidamente ao grupo a capacidade de produção que começa a lhe faltar. Além da explosão nas vendas de computadores nos últimos anos, o Positivo acaba de ganhar uma concorrência para fornecer equipamentos de informática para os programas de inclusão digital do governo federal. No final de outubro, ele solicitou ao CAS (Conselho de Administração da Suframa) uma licença para fabricar computador na Zona Franca de Manaus em uma unidade própria.
Helio Rotenberg, presidente da empresa, admitiu, inclusive, a possibilidade de atuar no mercado de televisores em Manaus. As duas empresas não quiseram comentar as negociações. A Gradiente, por intermédio de sua assessoria de imprensa, disse que "neste momento não há conversas". O Positivo informou que "não há conversas avançadas neste momento", segundo a sua assessoria de imprensa.
Qualquer que seja o modelo de venda, qualquer que seja o investidor, uma coisa parece certa: Staub não permaneceria no papel de controlador. Seria um acionista minoritário, longe das funções executivas do dia-a-dia. Em sua mesa pousariam assuntos mais estratégicos, de acordo com o perfil político e ideológico que sempre ostentou. Um dos fundadores do Iedi, o empresário sempre foi um leitor voraz e apaixonado por discussões de grandes temas econômicos. Nos últimos meses, porém, o que tem lhe consumido o tempo são as conversas de como salvar a Gradiente.
Fonte: Adriana Mattos e Joaquim Castanheira para a Isto É Dinheiro



