No tempo da maria-fumaça
Basta um piscar de olhos e… pronto! Mais um arranha-céu aparece vistoso atrás de uma nova ponte na incessante paisagem paulistana. A velocidade com que a metrópole se transforma não faz esquecer, no entanto, os contornos que desenhavam a São Paulo do passado.
Trecho da linha da Cantareira que cruzava o rio Tietê (1950)
Foto: Carlheinz Hahmann
De carona nesse espírito saudosista, a mostra Nos Trilhos do Trem das Onze, no Sesc Santana, reúne fotografias, mapas e depoimentos de antigos passageiros da linha Cantareira, que transformou a Zona Norte a partir de 1890 serpenteando bairros como Santana, Tucuruvi e Jaçanã — este último, imortalizado no samba Trem das Onze, de Adoniran Barbosa. A ferrovia ligava o centro da cidade à serra. Saía da região do Mercado Central, cruzava o rio Tamanduateí, depois o Tietê e, em Santana, abria-se em dois trajetos: um deles seguia até a atual área do Parque da Cantareira; o outro, até Guarulhos.
Estação do Mercado Central, em 1915
Foto: Coleção A. Andrade
Quando foi implantada, no final do século XIX, a ferrovia se limitava a levar mão-de-obra e matéria-prima para a serra, onde seriam construídos os mananciais de água para abastecer a cidade. A partir dos anos 30, a linha passou a ser um meio de transporte de massa. “Os paulistanos embarcavam na maria-fumaça para fazer piqueniques na serra ou para chegar mais rápido ao centro”, conta o pesquisador do projeto Rogério Nunes. “As pessoas eram reconhecidas na rua pelas fagulhas que saiam do trem e queimavam as roupas.”
Segundo Nunes, a Cantareira é a ferrovia urbana mais presente na história da cidade: funcionou durante 70 anos, parte deles sob administração da Estrada de Ferro Sorocabana. Em meados da década de 60, foi engolida pela explosão do número de ônibus que circulavam sobre o asfalto, transformando os trilhos em coisa do passado.
Curiosidades
Em 1922 foram transportados 2,8 milhões de passageiros no trem da Cantareira. Este número subiu para 4 milhões em 1941: mais de 10 000 usuários por dia, segundo dados da Estrada de Ferro Sorocabana, então administradora da linha.
O trem da Cantareira cruzava o Rio Tietê, na altura do bairro do Canindé, onde ficava a Ilha da Coroa. As pontes foram construídas com peças de uma via férrea que, se tivesse existido, passaria pelo Vale do Anhangabaú.
Em 1930, a passagem custava cerca de 100 réis. Para efeito de comparação, o preço de um jornal, na época, era de 500 réis.
Das vinte estações que existiam ao longo da ferrovia apenas quatro ainda estão de pé, três delas em bom estado. As outras foram demolidas.
O metrô só chegou à Zona Norte da cidade doze anos depois da extinção do trem, que ocorreu em meados dos anos 60.
A atual Rua do Tramway, em Santana, tem esse nome porque está assentada sobre um trecho da ferrovia.
Histórias sobre o famoso samba que cantou o trem da Cantareira
Os versos do famoso samba Trem das Onze, de Adoniran Barbosa, até parecem bem convincentes. Mas, ao contrário do que diz a letra, Adoniran nunca morou no bairro do Jaçanã. Tampouco o tal ‘trem das onze’ costumava partir mesmo às 11 horas.
A canção, ironicamente eleita símbolo do carnaval carioca em 1964, é fruto da imaginação do compositor paulista – que também foi varredor, balconista, entregador de marmita, metalúrgico, encanador… Quando cantava, com sua voz roufenha e suas invencionices gramaticais, Adoniran retratava com maestria os bairros paulistanos.
Em Trem das Onze, o sambista eternizou o Jaçanã, região onde existiu, de fato, uma estação de trem. Ela fazia parte da linha férrea da Cantareira, no trecho que ligava o centro da cidade a Guarulhos.
Há registros de que os últimos passageiros do trem partiam rumo ao bairro às 20h30 e não às 23h. Uma das hipóteses para a origem da composição é o fato de Adoniran ter gravado participações em alguns filmes na Cinematográfica Maristela. Como morava no Cambuci, precisava pegar o trem até o Jaçanã, onde ficava o estúdio. Nessas idas e vindas, teria feito o samba.
Outra teoria: Adoniran era amigo do chefe da estação Jaçanã e teria composto a música em homenagem a ele. Há quem diga ainda que a escolha por esta parada do trem se deu apenas pelo fato de seu nome rimar com ‘amanhã’.
Para o pesquisador Rogério Nunes, uma coisa é certa: “O samba estourou um ano antes da desativação do trem da Cantareira. Pode parecer romântico demais, mas a canção, em tom de despedida, é como um prenúncio de que a ferrovia ia logo acabar”.
Trechos do DVD Adoniran Barbosa, Ensaio (Biscoito Fino, 2007)
Em entrevista, Adoniran conta: “Trem das Onze estourou no RJ”
Nos Trilhos do Trem das Onze.
Sesc Santana, Avenida Luís Dumont Villares, 579 Jardim São Paulo
tel.: 6971-8700.
Terça a sexta, 13h às 21h30; sábado, 10h30 às 20h30; domingo e feriados, 10h30 às 18h30. Grátis. Até 5 de fevereiro.
Fonte: Marcela Besson para o Portal Veja São Paulo



