Joe Berardo, o mecenas que vem de Portugal
Dono de uma coleção com cerca de 20 000 obras de arte, o milionário português Joe Berardo quer criar museus no Rio
Selmy Yassuda
O comendador Berardo no Sítio Burle Marx: negociações para convencer o Exército a ceder área de 400 000 metros quadrados
Uma das lembranças mais antigas do português José Manuel Rodrigues Berardo é a de estar parado na rua, ao lado dos irmãos, observando do outro lado da calçada um modesto museu que havia na Ilha da Madeira, sua terra natal.
O dinheiro, curto, não permitia que a família descobrisse o que havia lá dentro. "Eu morria de curiosidade", relembra. A situação mudou radicalmente. Aos 63 anos, com um patrimônio de mais de 500 milhões de euros – a nona maior fortuna de seu país, amealhada principalmente com a exploração de minas de ouro e diamante na África do Sul –, o agora comendador Joe Berardo quer criar no Rio, a exemplo do que já fez em Portugal, dois museus e um jardim de esculturas para expor parte do acervo de mais de 20 000 obras de arte que colecionou ao longo dos anos.
"Os brasileiros sempre acolheram os portugueses de braços abertos", justifica sua decisão de investir na cidade. "Até nosso rei veio para cá e foi bem recebido", diz, referindo-se a dom João VI. "Não sei bem como foi a história, mas sei que faz 200 anos."
Aqui, um dos objetos de seu desejo é o Sítio Burle Marx, em Guaratiba. O sítio tem 360 000 metros quadrados. Ao comprá-lo, em 1949, o paisagista acreditava estar adquirindo 760 000 metros quadrados. Quando decidiu doar as terras à União, em 1985, Marx descobriu que havia sido enganado: 400.000 metros quadrados pertenciam ao Exército. Berardo quer aproveitar todo o terreno para expor obras de grande porte de artistas como Alexander Calder, Henry Moore, Niki de Saint-Phalle, Jean Dubuffet e Richard Long, entre outros. O sítio ganharia teleférico para que os visitantes pudessem percorrê-lo, viveiro de mudas para projetos de reflorestamento, aquário, borboletário, restaurante…
A proposta de cessão do terreno está sendo analisada pela Diretoria de Patrimônio do Exército. De acordo com a seção de comunicação social do Comando Militar do Leste, como a área integra a Reserva Biológica e Arqueológica de Guaratiba, qualquer mudança em sua destinação deve ser aprovada por vários órgãos.
A transformação do Sítio Burle Marx tem no governador Sérgio Cabral um defensor. "Berardo é um self-made man que se apaixonou pela arte", disse Cabral. "Seria muito importante para o estado tê-lo aqui. Por isso, coloquei-me à disposição para ajudá-lo nos contatos com o Comando Militar do Leste." O projeto é uma junção do que Berardo fez em duas instituições que criou em Portugal. Na Ilha da Madeira, comprou um antigo hotel de luxo, o Monte Palace, e transformou o lugar num jardim exótico, com plantas de várias regiões do mundo.
Na Quinta dos Loridos, propriedade que tem perto de Óbidos, a 94 quilômetros de Lisboa, está montando o Jardim da Paz, com esculturas gigantes de budas – em média, cada uma tem 5 metros de altura; a maior delas, mede 21 metros – compradas na China. "Havia estátuas novas e antigas, e eu resolvi comprar as novas", conta. "Porque na China fazem coisas novas que parecem antigas e cobram muito caro. Então, melhor é comprar logo as novas."
As investidas do comendador Berardo no Rio visam ainda à abertura de um museu dedicado à art déco e um de arte popular. Para o de art déco, comprou há pouco de um colecionador carioca uma série de 470 trabalhos do alemão August Herborth, avaliada em torno de 200.000 dólares. O artista, que passou uma temporada no Brasil na década de 1920, usou os traços geométricos da arte marajoara para criar uma série de desenhos.
"A coleção fica no Rio, não vou levá-la embora", garante. "Só preciso encontrar um lugar para deixá-la." Berardo tem em vista duas casas, uma na Urca e outra no Flamengo, ambas em estilo art déco. O museu de arte popular já tem acervo e pouso. Em janeiro, o milionário comprou uma coleção de carrancas do Rio São Francisco e várias peças dos herdeiros de Paulo Pardal, ex-conselheiro do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), que serão expostas num casarão colonial em Barra de São João, distrito de Casimiro de Abreu, no Litoral Norte.
Para fazer a fortuna que lhe permitiu ter em seu acervo obras de artistas como Picasso, Miró, Warhol, Francis Bacon, Magritte e Duchamp, Berardo trocou a Ilha da Madeira pela África do Sul aos 18 anos. No seu primeiro dia de trabalho numa fazenda sul-africana, recebeu a incumbência de arrancar ervas daninhas de uma plantação. "Eu não sabia qual era a diferença, para mim era tudo igual", recorda. "Então arranquei tudo", conta, às gargalhadas, na suíte do Copacabana Palace, onde costuma hospedar-se quando vem ao Rio. Conseguiu manter o emprego, mas o patrão achou melhor mudá-lo de função. Passou a seguir nos comboios que vendiam comida aos trabalhadores nas minas de ouro.
"Comecei a ganhar dinheiro assim." Gastou pouco, juntou muito. O passo seguinte foi comprar minas de ouro abandonadas. "Quando as minas não produziam mais tanto ouro, eram deixadas de lado", conta. Nos resíduos deixados para trás, Berardo encontrou minério suficiente para dar o salto de sua vida. Depois vieram os diamantes. "Fiquei rico", resume. Em 1985 recebeu do então presidente da República português, Ramalho Eanes, a Ordem do Infante D. Henrique no grau de comendador. "E aí fiquei importante", completa.
Berardo expandiu seus negócios: teve empresas de mineração no Canadá e na Austrália; associou-se a companhias de exploração de petróleo e gás; comprou vinícolas em Portugal, onde produz, entre outros, o afamado rótulo Quinta da Bacalhôa; é dono de 2% das ações da gigante Portugal Telecom; em junho, fez uma oferta pública na bolsa de valores portuguesa para comprar o clube de futebol Benfica – não conseguiu, um dos poucos fracassos de sua carreira. Em junho também inaugurou o que diz ser seu maior orgulho: o Museu Coleção Berardo de Arte Moderna e Contemporânea, em Lisboa. Um acordo com o governo português cedeu 862 obras ao museu. Findo o prazo de dez anos, Portugal tem a opção de comprar o acervo, avaliado pela casa de leilões Christie’s em 316 milhões de euros. Por causa disso, Berardo foi alvo de críticas – a principal delas, pelo fato de não estar simplesmente doando a coleção. "É um bom negócio: se as obras se valorizarem em dez anos, o governo pagará o valor estabelecido agora", explica. "Mas já estou acostumado. As pessoas gostam de criticar quem faz." A abertura do museu reuniu a elite portuguesa num elegante jantar no Mosteiro dos Jerônimos. Entre os convidados, o primeiro-ministro português, José Sócrates, e o governador do Rio, Sergio Cabral. "Para mim, um emigrante, juntar toda aquela gente foi emocionante", afirma. Em três meses, segundo seus cálculos, a instituição já recebeu 1 milhão de visitantes.
Fotos divulgação
O modelo: no antigo hotel Monte Palace (acima) criou um jardim; na Quinta dos Loridos (à esq.) espalhou esculturas gigantes, algumas compradas na China (à dir.)
Quando começou as coleções, nos anos 80, o comendador cercou-se de consultores que o orientavam. "Até hoje não compro nada se não tiver aconselhamento", diz. "Eu não sei fazer nada. O que sei é escolher pessoas que façam para mim." Jura ignorar o valor de suas 20 000 peças. "Não fico discutindo dinheiro." A coleção mais importante é a de arte moderna e contemporânea, mas Berardo tem ainda uma de azulejos portugueses feitos a partir do século XV; outra de objetos art déco, instalada no Museu de Sintra, também criado por ele; mais uma de esculturas e objetos africanos; e um inusitado conjunto de bacios de cama – aqui conhecidos como urinóis – dos períodos eduardiano e vitoriano.
O xodó, no entanto, são duas coleções que o acompanham desde os 10 anos de idade: de selos e de caixas de fósforos. "Dessas eu não me desfaço de jeito nenhum."
Quem o vê cercado de tanta arte não imagina a frustração do comendador em sua primeira compra. Em 1969, às vésperas de se casar com Carolina, com quem tem dois filhos e a quem conhecera na África do Sul, saiu para comprar móveis para a nova casa. Na tal loja havia alguns quadros pendurados nas paredes, e um deles chamou sua atenção. "Meu inglês ainda era muito ruim e pedi a Carolina que perguntasse o preço." Comprou, junto com a mobília. Dias depois, ao pendurar o quadro, deu-se conta de que havia comprado uma reprodução impressa. "Eu murchei. Minha mulher começou a rir, e eu reclamando que tinha levado um print", lembra. "Até que ela conseguiu dizer: ‘Se tu quisesses comprar o original, tinhas de ir ao Louvre, porque compraste o print da Mona Lisa’." Berardo jura que a história é verdadeira e que mantém até hoje a tal reprodução em sua casa na África do Sul. E encerra a conversa para atender o celular. O toque? Nothing Compares 2 U (Nada Se Compara a Você), na voz de Sinead O’Connor. "É minha música-tema", confessa.
Fonte: Cristina Grillo com a colaboração de Lívia de Almeida para a VejaRio



