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Marinha brasileira libera os arquivos sobre o Almirante Negro

12/03/2008 Publicado por: Xico Lopes Categorias: Brasil, Comportamento, Datas & Acontecimentos, Direitos Humanos & Cidadania, Documentos, Estudos, Estatísticas & Relatórios, Governo, História, Justiça, Direito & Legislação, Militar, Música & Músicos, Personalidades & Personagens, Práticas, Usos & Costumes, Rio de Janeiro, Sociedade, Vídeos & Videoclipes 1 Comment →

JoaoCandidoFelisberto

A Marinha liberou, enfim, depois de 97 anos, documentos referentes ao marinheiro de 1ª classe João Cândido Felisberto (1880-1969), o Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata, e ajudou a localizar sua ficha funcional no Arquivo Nacional.

Os documentos agora tornados públicos só haviam sido consultados por oficiais e historiadores da própria Marinha e usados para corroborar a versão oficial do episódio que acabou com os castigos corporais nos navios de guerra.

Quem foi João Cândido?

Um homem simples que tornou-se o Primeiro Herói Brasileiro do Século XX

No ano de 1910, mais de 200 marujos agitaram a baía de Guanabara, ao se apoderarem de navios de guerra para exigir o fim dos castigos corporais na Marinha da Brasil, herança do período imperial, onde essa arma era tida coma a mais importante e dirigida pelos mais "aristocráticos" oficiais. Foi a Revolta da Chibata, liderada por João Cândido, o Almirante Negro.

O Brasil era então uma das maiores potências navais do mundo, destacando-se a sua Esquadra Branca formada pelos encouraçados Minas Gerais e São Paulo, pelos cruzadores Rio Grande do Sul e Bahia e por mais 18 navios.

O Governo gastara uma fortuna para modernizar sua esquadra, mas o código disciplinar da Marinha era o mesmo do tempo da monarquia, assim como os arbitrários processos de recrutamento. Criminosos e marginais, produtos de uma sociedade que lhes negava maior sorte, eram colocados lado a lado com homens simples do interior para cumprir serviço obrigatório durante 10 a 15 anos! As desobediências ao regulamento eram punidas com chibatadas… Por isso, as revoltas ocorriam antes mesmo do ingresso na corporação.

O decreto nº 3, de 16 de novembro de 1889, um dia após a Proclamação da República, extinguiu os castigos corporais na Armada, mas em novembro do ano seguinte o marechal Deodoro, contraditoriamente, tornou a legalizá-los: "para as faltas leves prisão e ferro na solitária, a pão e água; faltas leves repetidas, idem por seis dias; faltas graves, 25 chibatadas". Como os reclamos dos marujos não foram ouvidos, eles passaram a conspirar.

Uma primeira advertência foi feita durante a ida de uma divisão da Marinha às comemorações da Independência chilena, em que ocorreram 911 faltas disciplinares, a maioria punida com açoites: "Venho por meio destas linhas pedir para não maltratar a guarnição deste navio, que tanto se esforça por trazê-lo limpo. Aqui ninguém é salteador nem ladrão" dizia um aviso ao comandante de um dos navios, assinado por um marinheiro conhecido como Mão Negra.

Na madrugada de 16 de novembro a Guanabara está repleta de navios estrangeiros que aportam para a posse do marechal Hermes da Fonseca na presidência da República. Ao raiar do dia, toda a tripulação do Minas Gerais é chamada ao convés para assistir aos castigos corporais a que seria submetido o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes. Na noite anterior ele ferira a navalhadas o cabo Valdemar, que o havia denunciado por introduzir duas garrafas de cachaça no navio. Sua pena: 250 chibatadas e não mais 25 como vinha acontecendo. Junto à tripulação do navio havia também oito carrascos oficiais. Depois de examinado pelo médico de bordo e considerado em perfeitas condições físicas, Marcelino é amarrado pelas mãos e pés e submetido ao castigo. Durante o castigo, Marcelino desmaia de dor, mas a surra continua. Ao fim das 250 chibatadas, suas costas estão banhadas em sangue lanhadas de cima para baixo. Desacordado, ele é desamarrado, embrulhado num lençol e levado aos porões. Lá jogam iodo em suas costas e o deixam estrebuchando no chão.

Na noite de 22 de novembro de 1910, a revolta explodiu. João Cândido assumiu o comando do Minas Gerais, morrendo na luta o comandante Batista das Neves, alguns oficiais e vários marinheiros. Os primeiros tiros assustaram o recém-empossado Hermes da Fonseca, que assistia tranqüilamente a uma ópera de Wagner… Outros marujos tomaram o São Paulo, o Bahia e o Deodoro. Manobrando as belonaves com grande perícia, apontaram seus canhões para pontos estratégicos da cidade, exigindo, em comunicado enviado ao Presidente da República, a reforma do Código Disciplinar, o fim das chibatadas, "bolos" e outros castigos, o aumento dos soldos e preparação e educação dos marinheiros.

Sem força para dominar a rebelião, que recebera o apoio da oposição e de parte da população carioca, o marechal Hermes e o Parlamento cederam às exigências. Rapidamente aprovaram um projeto - de autoria de Rui Barbosa, que anos atrás tinha apoiado a reinstauração dos castigos - pondo fim aos açoites e concedendo anistia aos revoltosos. Fato raro na história do Brasil, a revolta popular - "uma conspiração de cozinha tantas vezes fatais à sala", como se chegou a lembrar - triunfara.

Mas o Governo não perdoou a ousadia daqueles marujos "sem cultura" e "sem responsabilidades". Ignorando a anistia, baixou um decreto regulamentando o afastamento dos marinheiros julgados indesejáveis e, em seguida, mandou prender 22, entre os quais alguns participantes da revolta de novembro. Interessado em estabelecer uma ditadura para calar a oposição, provocou novo levante, ao espalhar a notícia de que o Exército viria punir os fuzileiros do Batalhão Naval. O objetivo do governo, como denunciaram seus adversários, era criar um pretexto para a decretação do estado de sítio.

Atemorizados, os marinheiros insubordinaram-se mais uma vez a 9 de dezembro, sendo bombardeados por canhões do Exército e da Esquadra Branca. Houve dezenas de mortos e inúmeros presos, inclusive João Cândido. Na noite de Natal, 97 foram embarcados no Satélite, com destino à Amazônia, onde seriam submetidos a trabalhos forçados na extração da borracha, produto que vivia seu momento de apogeu. No meio da viagem, sete deles, acusados de conspiração, foram fuzilados, enquanto dois se atiraram no mar, morrendo afogados.

João Cândido, "o negro que violentou a história do Brasil", nas palavras do escritor Gilberto Amado, foi preso, com mais 17 marinheiros, numa masmorra encravada na rocha em forma de cúpula na ilha das Cobras, onde a ventilação era feita através de furos na chapa de ferro de uma das portas e em outra de madeira com alguns orifícios.

Ali, 15 morreram asfixiados na manhã seguinte. A cela fora desinfetada por água e cal. A água evaporou-se com o forte calor e a cal penetrara nos pulmões dos marinheiros. "A gente sentia um calor de rachar. O ar abafado. A impressão era de que estávamos sendo cozinhados dentro de um caldeirão. Alguns corroídos pela sede, bebiam a própria urina…

João Cândido, um dos sobreviventes, foi internado no Hospital dos Alienados, do Rio, onde os médicos negaram que ele estivesse louco. Julgado em novembro de 1912, foi absolvido, bem como todos os marinheiros participantes das revoltas.

Em 1959 voltou ao Sul do País para ser homenageado, mas a cerimônia foi suspensa por interferência da Marinha do Brasil. Discriminado e perseguido até ao fim da sua vida, faleceu de câncer no Hospital Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, pobre e esquecido, aos 89 anos de idade. A sua memória foi resgatada na década de 1970 pelos compositores João Bosco e Aldir Blanc, no samba O mestre-sala dos mares.

Em outubro de 2005, o Deputado Elimar Máximo Damasceno (PRONA/SP) apresentou o projeto de lei n. 5874/05, determinando inscrever o nome de João Cândido no Livro dos Heróis da Pátria, que se encontra no Panteão da Liberdade e da Democracia, na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF).

Em Setembro de 2007, faleceu, aos 82 anos de idade, a filha caçula de João Cândido, Dona Zeelândia Cândido, que dedicou sua vida a obter a reintegração do nome de seu pai à Marinha do Brasil, corporação da qual saiu sem quaisquer direitos.

Em 22 de Novembro de 2007 (aniversário de 97 anos da Revolta da Chibata), foi inaugurada uma estátua em homenagem ao Almirante Negro, João Cândido Felisberto, nos jardins do Museu da República, antigo Palácio do Catete, prédio do governo bombardeado durante a revolta. A estátua, de corpo inteiro, de João Cândido, com o leme em suas mãos, foi afixada de frente para o mar. Como parte integrante da solenidade, que teve a presença de autoridades, entre elas o deputado federal Édson Santos, autor do projeto de instalação da estátua, foi exibido o filme "Memórias da Chibata".

João Cândido simbolizou a luta pela dignidade humana. Sua coragem, no entanto, teve um preço alto demais. O mestre-sala dos mares foi um divisor de águas na Marinha. Graças a ele, a chibata nunca mais foi usada. Ele marcou seu espaço na história deste país.

Fontes: Wikipedia, História da Sociedade Brasileira - Ed. Ao Livro Técnico, O Negro da Chibata - Ed. Objetiva via Fórum História

 

Assista agora, na interpretação inesquecível de Elis Regina, com autoria de João Bosco e Aldir Blanc, a bela Mestre Sala dos Mares 

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