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O "caso Isabella" e o "diferencial Delta"

21/04/2008 Publicado por: Xico Lopes Categorias: Brasil, Comportamento, Comunicações, Datas & Acontecimentos, História, Jornalismo, Justiça, Direito & Legislação, Mídia, Opinião & Crítica, Personalidades & Personagens, Política & Políticos, Sociedade, São Paulo, Televisão, Ética, Moral & Filosofia No Comments →

Visão_Global O Visão Global, nossos leitores certamente perceberam, ao curso destes dias, passou ao largo de um tema que gerou comoção em todo o Brasil: a morte da pequena Isabella. Assim o fizemos por entendermos que, mesmo sendo um assunto candente, não era a nossa seara. Muito já foi especulado sobre este episódio. Agora o Visão Global volta a sua atenção para este assunto simplesmente porque o nosso colaborador Marco Ferrari neste artigo agrega outros valores, outras considerações, que por serem pertinentes e relevantes, reveladores da sua visão apurada, o que em se tratando de Marco Ferrari, não é novidade.

marcoferrari-thumb1 Por Marco Ferrari (premionacionaldeliteratura@ig.com.br)

À Rede Globo que através dos seus veículos de comunicação teve influência e poder para orientar e até determinar os segmentos mais transcendentais do nosso país, coube um episódio que, pelo alcance significativo de uma das suas tantas criatividades, a pretensão dos seus propósitos e o fracasso do seu resultado, passou a história nacional mais do que por esse soneto que entendera de inigualável rima, pela emenda da sua dissonância: “O Diferencial Delta”.

Poucos anos atrás, as pesquisas feitas no estado do Rio de Janeiro, indicavam que o ex-governador do Rio Leonel Brizola, velho desafeto de guerra das Organizações Globo, ganharia sim ou sim as eleições para governador voltando a ocupar esse cargo e, ao fazê-lo, traria no embornal dessa vitória dificuldades variadas para o poder e hegemonia do áulico de março de 1964.

Não foi assim como pretendeu entender essa organização, pois, invadindo o enorme espaço que a propaganda das grandes multinacionais lhe havia habilitado acompanhando pelo Brasil todo o espaço anunciante das suas novelas, passou a veicular maciçamente que, se bem era certo que pelas pesquisas tradicionais Brizola seria eleito governador do Rio, empregando-se o “Diferencial Delta” aconteceria precisamente o contrário.

Para consolidar ainda mais o significado desta trama, faço minhas as palavras do Observatório da Imprensa do dia 6/07/2004 que sob o título A Globo e a Proconsult coloco entre aspas:

Com sua estratégia, a Rádio JB ganhou em agilidade diante da cobertura paquidérmica da Rede Globo. E pôde revelar em primeira mão a fraude que se armava, dada as discrepâncias entre os números que anunciava e os constantes nos boletins oficiais do TRE. A apuração foi interrompida e o esquema, descoberto, então desmontado às pressas.

O resultado final mostrou o que as ruas já haviam indicado durante a campanha: Leonel Brizola foi eleito com 1.709.180 votos (ou 34,2% dos votos válidos), Moreira Franco ficou com 1.530.706 (30,6%), Miro Teixeira com 1.073.446 (21,5%), Sandra Cavalcanti obteve 536.383 (10,7%) e Lysâneas Maciel contou 152.614 votos (3,1%)”.

E era cálculo diferencial para aqui, e cálculo diferencial para lá de dia e de noite.

Como todo o mundo sabe Leonel Brizola ganhou.

IsabellaNardoniQuando a partir do domingo bem cedo, estrategicamente, a Rede Globo começou a anunciar “novas revelações”, “revelações inéditas no caso da menina Isabella”, pretendendo direcionar o telespectador habitual - e ao ocasional voltado à semifinal do campeonato paulista de futebol – a assistir em bloco tais “revelações”, encerrava em seu lacônico convite a expectativa da maior boa fé num cenário de duas versões a serem comparadas com isenção e equidade: O argumento dos acusados e as provas técnicas e científicas que exibem seus acusadores.

Dando razão ao velho adágio galego “O diabo perde o cabelo, mas não as manhas”, o que se viu na realidade foi uma reportagem que pelo roteiro direcionado e tendencioso chegou ao extremo do constrangimento quando a pretensão era a de transmitir piedade (?) e a idéia de que o casal está sendo vítima gratuita da tortura do Estado(?) onde, polícia, testemunhas, espaço, tempo, câmeras, promotor, juiz, Instituto Médico Legal e Instituto de Medicina Científica mentem, nivelando em (in)justiça sua classe média alta pelo gravíssimo crime cometido (e pelo qual ainda estão à solta) àquela de quem tenta furtar um xampu, um pote de margarina ou um pente de um supermercado e passa meses na cadeia, e a quem jamais essa emissora concessionária do Estado dedicou sequer um segundo da sua caríssima programação para se defender.

E o pior não é isso: Se bem é certo que a imediata ré sustinha o seu olhar por algum tempo com seu interlocutor-defensor, fria e adestrada, o pai da criança assassinada a não ser por breves frações de segundos, passou toda a entrevista olhando para os lados ou para o chão.

Este reapresentado “Diferencial Delta” não foi só um logro para os milhões de telespectadores que presenciam aos domingos o “Fantástico” buscando para seu serviço a diversidade de coisas úteis entre suas tantas futilidades, senão uma ofensa às instituições, sua gente e seus métodos democráticos mais representativos, ao autorizar e referendar a veiculação de álibis contracenando com, por exemplo, não pode existir DNA onde nunca houve uma só gota de sangue da Isabella no carro, na garagem, no corredor, na sala, nos quartos, nas camas, na roupa que usava a madrasta e o pai, na fralda, a toalha, no chinelo, na grade de proteção e no parapeito da janela, deixando cunha para a acusação que sobrevêm como conseqüência: “Foi a polícia que as colocou para não ir atrás do verdadeiro assassino”.

Ofensa também para os policiais, médico e auxiliares, vizinhos – uma advogada e um engenheiro – a quem, ambos, nas versões preliminares imediatas que seguiram a queda da criança manifestaram por várias vezes “há um homem armado no interior do apartamento” e assim o depuseram ante a polícia espontaneamente.

Versão unilateral(?) que, também excluiu tocar a versão do porteiro de que ambos subiram juntos com os três filhos, negando terminantemente a versão do pai que diz haver subido primeiro com Isabella.

E da câmera do edifício em frente que, difere com cinco horas de diferença o tempo que a defesa orientou-os a declarar para o encaixe do assassino fantasma.

Para encerrar este teatro de horror, se alguém me perguntasse o que realmente acontecera no apartamento a noite do crime responderia: A madrasta num dos seus costumeiros arrebates de ciúmes doentios voltou a bater na Isabella esta vez de um modo brutal visto o resultado da perícia médica; o pai, vendo-a totalmente inerte, não percebendo sua respiração e notando seu rosto arroxeado pela asfixia da esganadura, imaginou-a morta e, querendo preservar da prisão a mulher jogou a filha pela janela.

As horas que faltam, mediadas entre os que os cúmplices do assassinato mencionam contradizendo todos os testemunhos e perícias enquanto preparavam desesperadamente seu (inverossímil) álibi, as aponta uma insuspeita câmera indiscreta: Aquela que por estar posta no edifício situado em frente eles esqueceram de que os culparia.

A “de casa” foi o de menos: Sabiam que não tinha filme.

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