Fogão à lenha ecológico para comunidades rurais nordestinas
Para as famílias que vivem em comunidades rurais, o uso do fogão à lenha ainda é uma realidade. Prática que remonta há milhares de anos, a descoberta de fontes de energia mais limpas (como o gás de cozinha ou a energia elétrica) não eliminou o uso da lenha.
Pelo contrário. Segundo o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Gás, ele superou o uso do GLP (Gás Liquefeito de Petróleo) a partir de 2001. Do total de energia consumida nas residências em todo País, apenas 26% são à base do gás de cozinha e 38% ainda utilizam o velho fogão à lenha. Além do custo do botijão de gás - muito alto para a maior parte das famílias das comunidades rurais -, a dificuldade de acesso ao botijão em locais fora da zona urbana é um outro fator.
Nos fogões à lenha tradicionais, além de utilizar grande quantidade de biomassa, provocando impactos no meio ambiente, a fumaça produzida pela queima traz uma série de problemas de saúde para as famílias que utilizam o fogão à lenha, como doenças respiratórias e oftalmológicas.
Para mudar essa realidade, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Energias Renováveis (IDER) está desenvolvendo um projeto de fogões à lenha ecoeficientes.
Unir melhorias diretas para população rural carente e promover a preservação florestal, contribuindo para evitar o aquecimento global. São estes os dois principais benefícios do projeto de disseminação de fogões ecológicos.
Simples, mas de resultados relevantes, estes equipamentos tem como vantagem promover o uso racional da biomassa. Com 100 unidades, o objetivo do projeto é demonstrar sua importância e incentivar futuros planos de disseminação em larga escala.
Mas como um fogão que utiliza lenha pode ser considerado ecológico?
Segundo o diretor do IDER, Jörgdieter Anhalt, o novo modelo de fogão garante eficiência energética. Ou seja: mais energia com menos lenha. “Os fogões ecológicos/ecoeficientes queimam até 60% a menos de lenha. Isto é uma grande economia e reduz drasticamente o impacto sobre o meio ambiente”, explica o diretor.
O fogão ecológico é composto por uma estrutura de metal, tijolos e refratários, além de uma chaminé que concentram o calor nas bocas e na chapa. Toda a fumaça é exalada pela chaminé, sem contaminar o interior da casa. A estrutura é feita de tal modo que o calor da queima seja aproveitado de forma muito mais eficiente.
Queimando-se menos lenha, promove-se a preservação florestal da caatinga, prevenindo-se a desertificação do semi-árido.
Este problema ambiental está pondo em risco uma rica biodiversidade, além de aprofundar problemas já presentes, como a pouca fertilidade e umidade do solo, pragas e escassez de água.
No Nordeste, é estimado em 6 mil toneladas o consumo diário de lenha. A adoção de fogões ecológicos pode reduzir este número em até 40%.
Ao mesmo tempo, uma queima mais eficiente da lenha elimina um sério problema: a poluição intra-domiciliar, causadora de doenças como bronquite, infecções pulmonares e asma.
Segundo dados do Grupo de Intermediação do Desenvolvimento Tecnológico (ITDG, em inglês), a fumaça intra-domiciliar mata mais gente do que a malária e quase tantas quanto à água contaminada e a falta de saneamento básico, uma a cada 20 segundos.
A idéia já vinha sendo praticada desde a década de 40 em países como a Índia, e vários outros modelos de fogões ecoeficientes foram empregados em diversos países da Ásia, África e América Latina. O trabalho de IDER foi adaptar esses fogões à realidade do Nordeste brasileiro. O modelo de fogão que o IDER trabalha é construído a partir de materiais que podem ser encontrados em municípios do interior e com técnicas facilmente aprendidas por trabalhadores locais. “O fogão também é adaptado para o tipo de madeira utilizada na região. Até a sua altura foi pensada na mulher nordestina, o que ajuda a acabar com as dores nas costas causadas pela necessidade de se agachar para cozinhar e de carregar grandes quantidades de lenha”, ressalta Anhalt.
Além de ganhar o fogão sem qualquer custo, as comunidades também foram envolvidas em um trabalho de educação e preservação ambiental, por meio da identificação coletiva das principais potencialidades e ameaças ao meio ambiente. A partir daí, definiram-se ações de proteção. “Foi decidido, por exemplo, não retirar mais lenha das encostas da serra, replantar áreas degradadas e proteger as fontes de água. Toda esta etapa contou com a participação das escolas, com destaque para apresentações de teatro e vídeos”.
Ações
Uma equipe multidisciplinar formada por técnicos das áreas de engenharia, meio ambiente, saúde e ciências sociais, inicialmente faz um diagnóstico das comunidades onde a degradação ambiental e os problemas de saúde são mais graves. Nesses locais, os moradores são apresentados ao projeto e ajudam na seleção das famílias a serem beneficiadas.
Trabalhadores do local são convidados para as etapas de construção, gerando emprego e renda. As atividades de sensibilização continuam com o uso de cartilhas informativas, reuniões comunitárias e acompanhamento do uso dos novos fogões. Também é feita a mensuração dos impactos dos indicadores de saúde.
Em paralelo e após a implantação dos fogões ecológicos, é iniciada uma série de atividades participativas de preservação ambiental, que podem envolver o plantio de mudas, limpeza de determinadas áreas e adoção de hábitos ecologicamente mais indicados. Os impactos alcançados são verificados nos meses posteriores.
Estão sendo beneficiadas comunidades de serra, sertão e litorâneas dos municípios de Itapipoca, Pentecostes e Trairi, todos na região oeste do Ceará.
Parcerias
Com o apoio do GVEP e do Programa E&D, o IDER realizou a adaptação de projetos de fogões ecológicos já usados em outros países para a realidade do semi-árido brasileiro.
Associado da Partnership for Clean Indoor Air (PCIA), rede internacional de instituições que trabalham com fogões ecológicos, o IDER mantêm-se atualizado das novas possibilidades técnicas. Também é fundamental a colaboração das prefeituras municipais das localidades beneficiadas.
Veja também: EcoFogão - Fogão de lenha ecológico
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Fonte: Adital e IDER



