Ícaro renascido: apresentado o protótipo do "Solar Impulse"
Será um avião? Será um planador? É um pouco de ambos e pretende voar apenas com energia solar, abandonando o combustível. Conheça o HB-SIA.
Bertrand Piccard podia ser protagonista de um romance de Júlio Verne, mas a história que este aventureiro suíço pretende reescrever é outra: a de Ícaro, o jovem que, na mitologia grega, ficou conhecido por ter sucumbido ao fascínio do Sol. Atraído pela beleza e magnitude do astro, Ícaro ignorou os avisos do pai e aproximou-se demasiado, derretendo a cera que segurava a suas asas artificiais e precipitando-se no mar Egeu.
Este é um destino que Piccard, de 49 anos, quer certamente evitar quando, dentro de quatro anos, tentar completar a volta ao Mundo num avião propulsionado apenas por energia solar. É muito mais que um desafio tecnológico e científico. É, em grande medida, um desafio ambiental, pois o sucesso do projeto seria um passo importante para reduzir o uso de combustível na aviação. Estaria aberto o caminho para a era do avião ecológico.
Uma utopia? Piccard e os seus incentivadores - que vão desde "Buzz" Aldrin, membro da primeira missão lunar, ao escritor brasileiro Paulo Coelho - acreditam que não e querem prová-lo. O primeiro passo será dado com a divulgação, em Dübendorf, nos arredores de Zurique, na Suíça, do HB-SIA, o protótipo do aparelho que, em 2009, irá tentar manter-se no ar durante 36 horas. Será mais uma etapa rumo à meta final definida pelo aventureiro suíço: dar a volta ao mundo a bordo de um avião não poluente, alimentado apenas por energia solar.
61 metros de envergadura, apenas 1500 quilos de peso
Desenvolver um avião solar capaz de manter a autonomia de voo mesmo depois do pôr-do-sol é um desafio exigente. Os atuais aviões solares não foram concebidos para armazenar energia, pelo que são obrigados a aterrar após algumas horas de voo, quando a luz solar se torna insuficiente (devido ao céu nublado ou ao cair da noite).
Não será esse o caso do HB-SIA, garantem os seus promotores, que reuniram uma equipe de 50 trabalhadores e mais de uma centena de especialistas para levar a cabo aquela que esperam vir a confirmar-se como uma obra de engenharia notável. Com enormes asas de 61 metros e uns escassos 1500 quilos de peso, o aparelho é uma espécie de meio-termo entre um grande avião de passageiros e um planador.
Toda a concepção do protótipo, da forma ao seu peso, foi pensada no sentido da maior eficiência energética. Só um avião muito leve e aerodinâmico pode voar suficientemente devagar (45 km/h) com a escassa energia disponível durante a noite.
Construído num composto fibra de carbono e favo de abelha, o aparelho integra um total de 200 m² de células fotovoltaicas, que cobrem, sobretudo, as suas asas. Sendo a fase de voo noturno a mais crítica (pela ausência de luz solar), um dos aspectos principais do projeto reside nas baterias que irão acumular a energia necessária. Pesam 400 quilos, ou seja, mais de um quarto da massa total do avião, o que impôs uma redução drástica do peso da restante estrutura.
Volta ao Mundo em 2011
A construção do HB-SIA teve o seu início em junho e deverá estar concluída no próximo Verão. Se o calendário for cumprido, os testes com o aparelho começarão no Outono de 2008, permitindo a realização de um voo de 36 horas em 2009. Esta fase é decisiva, já que na mente de todos está ainda o desfecho do Hélios, o avião solar da NASA que, em 2003, se partiu ao meio 29 minutos depois de ter decolado. Até lá, permanecerá o suspense sobre a possibilidade do avião resistir à noite e prosseguir a sua missão. Depois, será desenvolvido um outro avião para tentar realizar vários ciclos de voo de 24 horas, levando ao primeiro voo solar transatlântico em 2011 e, depois, à navegação em volta do planeta.
A aeronave poderá levar apenas um passageiro de cada vez e deverá fazer cinco escalas, uma em cada continente, para apresentar a iniciativa ao público e às autoridades políticas e científicas. Bryan Jones, que, com Piccard, deu em 1999 a volta ao mundo em balão sem realizar escalas, e o engenheiro e piloto de caças André Borschberg, diretor executivo do projeto, irão alternar com o suíço nos comandos do avião. Cada etapa demorará quatro a cinco dias, considerado o tempo máximo que um piloto pode aguentar.
O projeto representa um investimento de 70 milhões de euros, 44 dos quais dedicados ao desenvolvimento do primeiro protótipo.
Bertrand Piccard: O Philleas Fogg do séc. XXI
O suíço Bertrand Piccard é uma espécie de Philleas Fogg dos tempos modernos. Psiquiatra de formação, Piccard, de 49 anos, já havia realizado em 1999, a bordo do Breitling Orbiter 3, a primeira volta ao Mundo num balão sem qualquer escala.
O desejo de aventura faz parte do código genético da família, já que Piccard representa a terceira geração de uma família de exploradores famosos. No início dos anos 30 do século XX, o avô, Auguste Piccard, realizou os primeiros voos na estratosfera numa cápsula pressurizada.
Duas décadas mais tarde, desceu com o filho Jacques até aos 3150 metros de profundidade, ganhando a alcunha de "o homem dos extremos", aquele que tinha subido à maior altitude e descido às profundezas do oceano.
Foi já sozinho que, na década de 60, Jacques, estabeleceu o recorde de profundidade em mergulho ao comandar o submersível Triest 1 ao maior abismo da Terra, a "Challenge Deep", localizada na Fossa das Marianas, no Pacífico Ocidental, a quase 11 mil metros de profundidade. Dando seguimento ao trabalho do pai, acabaria por construir o primeiro submarino turístico.
Com uma herança assim, Bertrand só podia dedicar-se a desafiar utopias, como num romance de Júlio Verne.
Fonte: Nelson Marques para o Expresso.pt



