O caminho para Samarra
Pintura de Julius Köckert (Koeckert) (1827-1918), de 1864, no Maximilianeum Foundation in Munich, óleo sobre canvas.(Image created and provided by Zereshk)
Um soldado da antiga Bassora, na Mesopotâmia, cheio de medo, foi ao rei e lhe disse: “Meu Senhor, salva-me, ajuda-me a fugir daqui; estava na praça do mercado e encontrei a Morte vestida toda de preto, que me mirou com um olhar mortal; empresta-me o seu cavalo real para que eu possa correr depressa para Samarra, que fica longe daqui; temo por minha vida se ficar na cidade”.
O rei fez-lhe a vontade. Mais tarde, o rei encontrou a Morte na rua e lhe disse: “O meu soldado estava apavorado; contou-me que te encontrou e que tu o olhavas de forma estranhíssima”. “Oh, não, respondeu a Morte, o meu olhar era apenas de estupefação, pois me perguntava como esse homem iria chegar a Samarra, que fica tão longe daqui, porque o esperava esta noite lá”.
Esta história é uma parábola da aceleração do crescimento feito à custa da devastação da natureza e da exclusão das grandes maiorias. Ele nos está levando para Samarra. Em outras palavras: temos pouquíssimo tempo à disposição para entender o caos no sistema Terra e tomar as medidas necessárias antes que ela desencadeie consequências irreversíveis.
Já sabemos que não podemos mais evitar o aquecimento global, apenas impedir que seja catastrófico. Em nível dos governos, não se está fazendo nada de realmente significativo que responda à gravidade do desafio. Muitos crêem na capacidade mágica da tecnociência: no momento decisivo, ela seria capaz de sustar os efeitos destrutivos. Mas a coisa não é bem assim. Há danos que, uma vez ocorridos, produzem um efeito avalanche.
A natureza no campo físicoquímico e mesmo as doenças humanas nos servem de exemplo. Uma vez desencadeada, não se pode mais bloquear uma explosão nuclear. Rompidos os diques de Nova Orleans nos Estados Unidos, não é mais possível frear a invasão do mar.
Na maioria das doenças humanas ocorre a mesma lógica. O abuso de álcool e de fumo, o excesso na alimentação e a vida sedentária começam a princípio produzindo efeitos sem maior significação. Mas o organismo lentamente vai acumulando modificações, primeiramente funcionais, depois orgânicas e, por fim, atingido certo patamar, surge uma doença não mais reversível.
É o que está ocorrendo com a Terra. A “colônia” humana em relação ao organismo Terra está se comportando como um grupo de células que, num dado momento, começa a se replicar caoticamente, a invadir os tecidos circundantes, a produzir substâncias tóxicas que acabam por envenenar todo o organismo. Nós fizemos isso ocupando 83% do planeta.
O sistema econômico e produtivo se desenvolveu já há três séculos sem tomar em conta sua compatibilidade com o sistema ecológico. Hoje, nos damos conta de que ecologia e modo industrialista de produção, que implica o saque desertificante da natureza, são contraditórios. Ou mudamos ou chegaremos a Samarra, onde nos espera algo sinistro.
A Terra como um todo é a fronteira. Ela coloca em crise os atuais modos de produção, que sacrificam o capital natural e as formações sociais construídas sobre o consumismo, o desperdício, o mau trato dos rejeitos e a exclusão social.
Três problemas básicos nos afligem: a alimentação, que inclui a água potável, as fontes de energia e a superpopulação. Para cada um desses problemas não temos soluções globais à vista. E o tempo do relógio corre contra nós. Agora é o momento de crise coletiva que nos obriga a pensar, a madurar e a tomar decisões de vida ou de morte.
Fonte: Por Leonardo Boff em O Tempo
Tenho restrições quanto ao pensamento de Leonardo Boff, mas está correto no que refere ao problema do aquecimento global. Não podemos ficar aguardando o desfecho, é necessário agir presto, ao contrário do que o sr. Bush preconiza.



