Chuvas, gravidez e AIDS – um prato cheio para a malária
MAPUTO - Numa manhã de segunda-feira, céu nublado, Cremilda Bulha, vestida de camiseta branca e saia, espera na fila do atendimento geral do Hospital Central de Maputo (HCM). Com a mesma certeza com que olha para uma paciente ao lado e comenta “Hoje vem mais chuva”, a jovem de 28 anos, grávida do segundo filho, disse: “Estou com malária.”
A malária é provocada pela picada do mosquito Anopheles e causa dores de cabeça, fadiga, febres intensas, náuseas, e às vezes, a morte. Além de ter que lidar com esses sintomas e a gravidez, Bulha também é soropositiva, o que aumenta suas chances de contrair malária.
Susana Nery, especialista em saúde pública da organização Malaria Consortium, explica que em países como Moçambique, onde esta doença é endêmica, as pessoas são picadas várias vezes e aos poucos criam resistências. Porém, entre grávidas, soropositivos e crianças, este escudo protetor enfraquece, tornando-as mais suscetíveis à doença. “Nestas pessoas cai o sistema imunológico e diminui a resistência natural”, enfatiza Nery.
No primeiro semestre deste ano, 2.5 milhões de casos de malária foram registrados em decorrência das cheias no país, e 1.518 doentes morreram, segundo o 19º Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde.
Apenas meio certa
Depois de duas horas, Bulha foi atendida no HCM. Logo que foi chamada pela enfermeira, recomeçou a chuva. A primeira previsão feita por Bulha estava certa. Mas ela errou na segunda: seu teste de malária voltou negativo. Bulha está grávida há três meses e há dois iniciou o tratamento antiretroviral. Mas no seu caso, é a gestação, mais que o HIV, que a torna mais vulnerável a apanhar malária.
O debilitado sistema imunológico demora mais a reagir contra a malária
Rui Bastos, médico do HCM, explica que os soropositivos têm mais chance de pegar malária apenas quando o sistema imunológico está debilitado, o que não ocorre com Bulha. Ela está com muitas células de defesa do organismo (CD4), e só toma antiretrovirais para prevenir a transmissão do HIV ao seu filho.
Quando o sistema imunológico está fragilizado, entretanto, é importante que os soropositivos tenham uma atenção especial quanto à malária, diz o professor da Faculdade de Medicina na Universidade Eduardo Mondlane, Armindo Tiago Júnior. Uma pessoa com malária pode ficar internada uma média de três dias. Para um doente de Aids, esse período aumenta para uma semana. “O debilitado sistema imunológico demora mais a reagir contra a malária”, explica o médico.
Ciente deste problema, a Cruz Vermelha de Moçambique (CVM) preparou seus 11 técnicos de saúde, distribuídos em todas as províncias, para serem especialmente minuciosos nos casos de malária entre os soropositivos. Para uma população de 19.8 milhões, Moçambique tem uma soroprevalência de 16,2%.
Redes e remédios
A prevalência de malária entre as mulheres grávidas moçambicanas é de aproximadamente 20%, aponta o Programa Nacional de Controle da Malária. Em 2004, a organização Health Alliance International analisou 5.528 grávidas das províncias de Sofala e Chimoio, encontrando sempre mais casos de malária entre as soropositivas que entre as soronegativas.
Como política do Ministério da Saúde, toda gestante, a partir da vigésima semana de gravidez, precisa fazer o tratamento presuntivo intermitente (TIP), uma profilaxia de comprimidos que diminui a probabilidade de se apanhar malária. Caso elas estejam em tratamento antiretroviral, os cuidados precisam ser dobrados, lembra Tiago Júnior. Quando tomados em conjunto, o antiretroviral nevirapina e o anti-malárico sulfadoxina pirimetamina provocam reações na pele, como manchas e mucosas, vômitos e dores abdominais.
(foto:Unicef)
Por isso, os dois remédios nunca são prescritos juntos. O médico faz a escolha, segundo o que ele definir ser mais importante para o paciente. Caso necessário, o anti-malárico ou o ARV é substituído por outro medicamento. A distribuição de "mosquiteiros" às gestantes para evitar a picada do mosquito é outra das principais estratégias para contenção da malária no país. Nos últimos três anos, apenas as distribuições da Malária Consortium e da Cruz Vermelha de Moçambique já somaram mais de 700 mil redes.
As províncias contempladas foram Cabo Delgado, Nampula, Manica, Sofala e Inhambane, indicadas pelo Ministério da Saúde devido à alta incidência da doença e poucos trabalhos assistenciais.
Mosquito gosta de chuva
Enquanto esperava a chuva parar, Bulha comenta: “É justamente deste tempinho que a malária gosta.” Os casos de malária em Moçambique aumentam nas épocas de chuva, pois o clima facilita a replicação do mosquito. Tomando antiretrovirais e fazendo o TIP contra a malária, Bulha disse que irá continuar a se cobrir todas as noites com a rede mosqueteira que ganhou no começo do ano. “É ela que está a me proteger. Desde que ganhei nunca mais tive malária”, diz.
Fonte: (lb/ll/ms) para IRIN-PlusNews



