Vinho tinto e a prevenção do diabetes
Há muitos anos, a literatura médica vem apontando que o consumo moderado de álcool pode ser benéfico à saúde, principalmente no que diz respeito à obstrução das coronárias (artérias do coração) causando o infarto do miocárdio. Comenta-se que os povos que habitam a área banhada pelo mar Mediterrâneo são “poupados” na prevalência de doenças coronárias comparativamente aos norte-americanos.
Colocou-se que o consumo de vinho tinto teria ação protetora sobre a deposição de gordura (colesterol) nas artérias do coração. Isto porque o vinho tinto possui substâncias antioxidantes derivadas de tanino (da casca da uva) e de flavonóides (da madeira do barril).
Estes antioxidantes seriam benéficos quanto à proteção da camada interna dos vasos do coração bem como de outras regiões do organismo. Por outro lado, nosso corpo possui uma enzima chamada Deidrogenase alcoólica, cuja função é metabolizar o etanol (álcool) das bebidas ingeridas - função realizada no fígado.
Vinho tinto, de forma moderada
Estudos recentes confirmaram que o consumo moderado de álcool está associado à diminuição da prevalência de diabetes no futuro, apesar de haver genética familiar para diabetes na ascendência do paciente.
Estudos com dois grupos de pacientes, um com inclusão de vinho e outro sem qualquer bebida alcoólica, confirmaram que o vinho, em quantidades razoáveis, melhora a sensibilidade da insulina. Isto é, o metabolismo do “açúcar” é melhor conduzido, com excelente entrada da glicose no sistema muscular e demais órgãos.
O aumento da sensibilidade à ação da insulina é muito bem-vindo, pois os indivíduos que têm obesidade predominantemente abdominal são, em geral, resistentes à ação da insulina. Isto significa que o nível de insulina precisa se elevar na circulação para exercer alguma ação no sentido de metabolizar a glicose circulante. Estes obesos mantêm nível alto de insulina na circulação. Obviamente o pâncreas - que produz insulina - tem trabalho dobrado, triplicado, para colocar muita insulina na circulação. Em alguns anos o exagero de insulina circulante representará um desgaste enorme para o pâncreas. O obeso, nesta fase, poderá apresentar diabetes.
O estudo da enzima que metaboliza álcool
A enzima hepática que metaboliza o álcool é a deidrogenase, conhecida por sua sigla em inglês, ADH. Os pesquisadores, liderados pelo dr. Beulens, dos EUA, notaram que os pacientes obesos, predispostos a diabetes futuro, exibem no fígado dois tipos desta enzima: a ADH1 e a ADH2.
Estudaram 640 mulheres e 383 homens com propensão para diabetes. Notaram que a ADH1 é cerca de duas vezes mais ativa para metabolizar o álcool que a ADH2. Assim, os indivíduos que, por questões genéticas, herdaram uma enzima menos ativa (ADH2) seriam propensos a ter o álcool mais tempo no fígado por ser a ADH2 menos eficiente na oxidação do etanol. Verificaram também que a enzima estava presente em 41% das mulheres e 40% dos homens.
O próximo passo foi o de comparar os pacientes com a enzima de excelente ação, ADH1, com a preguiçosa ADH2 e verificar se a metabolização bem executada do álcool pela ADH1 teria uma melhora no eventual aparecimento de diabetes.
Curiosamente nas mulheres o risco de ficar diabética não foi alterado quando se comparou o grupo de pacientes portadores de ADH1 com o ADH2. Mas os homens com ADH2 tiveram duas vezes mais casos de diabetes comparativamente aqueles com ADH1.
A conclusão: o consumo de álcool por mulheres é pouco afetado quer a paciente tenha enzima ADH1 ou ADH2. No caso dos homens a enzima mais eficiente (ADH1) é totalmente protetora para eventual aparecimento do diabetes dentro de um consumo moderado de álcool, preferencialmente vinho tinto. Como não temos condição, na prática diária, de verificar a genética de ADH em todos pacientes obesos, predispostos a diabetes, recomenda-se que percam peso, façam exercícios e usem, moderadamente, o vinho tinto em suas refeições principais.
Fonte: Geraldo Medeiros, médico endocrinologista, professor da USP E-mail: medeiros.dr@gmail.com para a Veja.com



